Campanhas de marketing, chefs e uma operação comercial em 1994 que vendeu 5 mil toneladas, explicam como o salmão norueguês virou ingrediente essencial do sushi no Japão
Nos anos 1980, a indústria do salmão da Noruega buscava novos mercados, enfrentava excesso de produção e precisava reposicionar o peixe para consumo premium.
Um projeto do governo norueguês e o trabalho de um jovem analista apaixonado pelo Japão foram decisivos para transformar a percepção dos japoneses sobre o salmão cru.
O processo combinou mudanças de nome, parcerias com chefs, campanhas e uma venda estratégica que ajudou a evitar o colapso do setor, conforme informação divulgada pelo g1.
A resistência inicial e a estratégia de mudança de imagem
Ao apresentar o produto, os importadores e atacadistas japoneses reagiram com ceticismo, pois acreditavam que o salmão tinha odor de rio, textura inadequada e cor pouco atrativa.
Segundo relatos, as reações foram resumidas na frase dita por profissionais do setor, "Não, nós, japoneses, não comemos salmão cru", lembrando a forte barreira cultural enfrentada pela campanha.
Para contornar isso, a equipe norueguesa substituiu a palavra japonesa para salmão, shake, por um nome adaptado, Noruee saamon, e passou a trabalhar com chefs e mídia para reposicionar o peixe como opção de sushi e sashimi.
O papel de Bjørn-Eirik Olsen e a observação do mercado
Bjørn-Eirik Olsen, analista de mercado que estudou no Japão e falava a língua local, percebeu o potencial do segmento de sushi e sashimi, onde peixes eram vendidos por preços muito superiores aos do mercado de cozinha.
Como ele mesmo descreveu, "Pude observar que o segmento mais interessante do mercado japonês era o do sushi e sashimi, dominado por peixes muito valiosos como o atum vermelho e a dourada, além de vários tipos de frutos do mar".
O trabalho incluiu colaborações com chefs renomados, como Yutaka Ishinabe, e ações de divulgação que foram gradualmente quebrando preconceitos sobre o consumo de salmão cru.
A crise dos estoques e a venda que mudou o destino da indústria
No início da década de 1990, a produção de salmão em cativeiro na Noruega cresceu muito mais rápido que a demanda em Europa e Estados Unidos, deixando toneladas nos congeladores e provocando queda de preços.
Segundo o relato, "Toda a indústria do salmão corria o risco de entrar em colapso", diante da falência de metade dos piscicultores e do escoamento insuficiente do produto.
Pressionado pelos estoques, o setor chegou a considerar a venda de 12 mil toneladas para uso culinário tradicional no Japão, mas Olsen negociou, e "ele chegou a um acordo com a empresa japonesa Nichirei para a venda de 5 mil toneladas, a serem comercializadas como salmão para sushi", ação que pavimentou a entrada do peixe no mercado de consumo cru.
A popularização pelo modelo de restaurantes e o legado atual
Outra mudança estrutural que acelerou a adoção foi a expansão de restaurantes de sushi mais acessíveis, com correias transportadoras, após o estouro da bolha econômica do Japão no início dos anos 1990.
Nesse formato, crianças e famílias passaram a pegar peças com salmão, sem preconceito, e o peixe se popularizou rapidamente, segundo o próprio relato de Olsen.
Hoje, o salmão é um dos ingredientes de sushi mais populares do mundo, e a Noruega segue como maior produtora por piscicultura, mesmo havendo debates sobre impactos ambientais e relações com populações de peixes selvagens.
O relato da transformação cultural e comercial do salmão, que partiu de iniciativas como o Projeto Japão de 1986 e culminou na consolidação do produto no menu japonês, mostra como mudanças de nome, marketing e decisões comerciais podem alterar hábitos alimentares.