Acordo prevê redução de tarifas sobre canola e cota para 49 mil carros elétricos chineses, Ottawa busca reconstruir laços com Pequim e enfrenta a ameaça direta de Washington
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou nesta sábado impor tarifas de 100% sobre importações canadenses, caso o Canadá feche um acordo comercial com a China.
O movimento coincide com a primeira visita de um líder canadense à China em oito anos, quando Ottawa negociou novas condições para exportações agrícolas e uma cota para veículos elétricos chineses.
Essas informações, sobre a reação americana e os termos discutidos entre Ottawa e Pequim, foram divulgadas em reportagens recentes, conforme informação divulgada pelo g1
O teor das ameaças de Trump
Em publicação na sua plataforma Truth Social, Trump escreveu que, se o primeiro-ministro Mark Carney “pensa que vai transformar o Canadá em um ‘porto de descarga’ para a China enviar mercadorias para os EUA, está muito enganado”.
O presidente foi direto sobre as medidas, ao afirmar, “Se o Canadá fechar um acordo com a China, estará imediatamente sujeito a uma tarifa de 100% sobre todos os bens e produtos canadenses que entrarem nos Estados Unidos”, alertou.
O que prevê o acordo entre Canadá e China
Segundo autoridades canadenses, o entendimento inclui a redução de tarifas chinesas sobre sementes de canola, que devem cair de 84% para cerca de 15% até 1º de março.
Ottawa também negociou a entrada inicial de até 49 mil veículos elétricos chineses com tarifa de 6,1%, contra a alíquota anterior de 100%, imposta em 2024 pelo governo de Justin Trudeau.
O primeiro-ministro Mark Carney afirmou que a cota vai aumentar gradualmente, chegando a cerca de 70.000 veículos em cinco anos, e que o acordo deve destravar aproximadamente US$ 3 bilhões em pedidos de exportação para agricultores, pescadores e processadores canadenses.
Retaliações, números e impactos setoriais
Em retaliação às tarifas de Trudeau, a China tinha imposto taxas sobre mais de US$ 2,6 bilhões em produtos agrícolas e alimentícios canadenses, como óleo e farinha de canola.
O efeito dessas medidas levou a uma queda de 10,4% nas importações de produtos canadenses pela China em 2025, segundo dados mencionados nas informações divulgadas.
Em 2023, a China exportou 41.678 veículos elétricos para o Canadá, número que ajuda a dimensionar a importância da abertura do mercado canadense para fabricantes chineses.
Reações internas e possíveis desdobramentos
No Canadá, a flexibilização das tarifas divergiu da política dos EUA e gerou críticas, inclusive de líderes provinciais como o primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, que alertou para os riscos de uma “enxurrada de veículos elétricos baratos” sem garantias de investimentos locais.
Embora Trump tivesse elogiado anteriormente a iniciativa de Carney em público, a ameaça de tarifas de 100% sinaliza uma pressão direta sobre Ottawa, que precisa equilibrar ganhos para exportadores de canola e pescadores com a possibilidade de retaliação americana.
Se concretizada, a medida de Washington teria impacto imediato nas cadeias de comércio norte-americanas, e forçaria negociações entre Ottawa, Pequim e a administração americana, com implicações para os setores agrícola e automotivo, além das relações trilaterais entre EUA, Canadá e China.