Jovens e profissionais formados trocam empregos no Brasil por faxina em Londres, atraídos por melhores ganhos, enfrentando irregularidade, medo e trabalho sem direitos
Muitos brasileiros deixaram diplomas e carreiras no Brasil para trabalhar com faxina em Londres, em busca de renda maior, e passaram a viver em situação irregular no Reino Unido.
O emprego informal garante ganhos superiores aos praticados no Brasil, mas traz condições precárias, medo constante de deportação e silêncio diante de abusos.
Conforme informação divulgada pelo g1, o relato de trabalhadores evidencia a tensão diária entre sustento e risco migratório.
Por que deixam a carreira no Brasil
Alguns chegavam com formação, como o oceanógrafo que passou a limpar casas, e decidiram pela mudança por falta de perspectivas no Brasil, por ganhos imediatos e por enviar dinheiro à família.
Fabiana, que concluiu o ensino médio, diz que sua falta de diploma universitário impede a regularização do seu status migratório, "Vim durante a pandemia, quando as regras e leis de imigração ficaram ainda mais complicadas. Além disso, assistência jurídica é cara, e priorizo ajudar minha família no Brasil com o dinheiro que ganho".
Wagner, o oceanógrafo, resume o dilema, afirmando que, mesmo com custo à saúde, no Brasil seria impossível conseguir estabilidade, e por isso permanece no exterior.
Condições de trabalho e informalidade
O setor de limpeza em Londres movimenta bilhões, mas se apoia em práticas de precarização e terceirização, segundo especialistas e pesquisas citadas pelo g1.
Dados do British Cleaning Council mostram que o faturamento do mercado de limpeza, higiene e resíduos do Reino Unido atingiu 66,9 bilhões de libras (cerca de R$ 482 bilhões) em 2022, e que o setor emprega 1,49 milhão de pessoas, cerca de 5% da força de trabalho britânica.
Na capital, 60% dos trabalhadores da limpeza nasceram fora do Reino Unido e 40% são britânicos, segundo a mesma fonte, dados que ajudam a explicar a presença de imigrantes, formais e informais, em ocupações como a faxina em Londres.
A falta de contrato e pagamento em dinheiro expõe trabalhadores a roubo de salários e à exploração, e muitos preferem não reclamar por medo de denúncia e deportação.
Fiscalização, deportações e retornos
O governo britânico intensificou a fiscalização contra trabalho ilegal e aumentou operações, prisões e multas, afetando sobretudo quem vive na informalidade.
Entre julho de 2024 e junho de 2025, o Home Office realizou 10.031 operações de fiscalização, um aumento de 48% em relação ao ano anterior, e foram registradas 7.130 prisões de imigrantes suspeitos de trabalho ilegal, 51% a mais que no ano anterior.
No mesmo período, o governo aplicou 2.105 multas a empregadores de pessoas em situação irregular, com punições chegando a 60 mil libras por trabalhador em situação irregular, e 4.810 brasileiros retornaram voluntariamente ao país, número que representa aumento de 49% em relação a 2024.
O Home Office afirma que o tempo de processamento para um visto de trabalho padrão e não complexo é de "o tempo de processamento para um visto de trabalho padrão e não complexo é de "apenas 15 dias úteis", e explica que o visto do tipo skilled worker exige oferta de um empregador aprovado e salário mínimo de 41,7 mil libras (R$ 339,4 mil), com possibilidade de redução para 30.960 libras [R$ 223,1 mil) por meio de pontos negociáveis, segundo nota citada pelo g1.
Decisões pessoais, risco e futuro
Trabalhadores relatam viver em estado de vigilância permanente, evitando reclamar e guardando dinheiro de emergência, como descreve Wagner, que diz manter "um contato para arrumar minhas malas caso eu seja deportado".
Marcel, pesquisadora citada pela reportagem, aponta que o crescimento do setor se apoia na precarização, e que muitos cleaners recebem em dinheiro, sem contrato formal, o que aumenta a vulnerabilidade.
Para quem pensa em viajar para trabalhar com faxina em Londres, a reportagem do g1 mostra que, além das oportunidades de renda, há custos humanos e legais importantes, e que a regularização depende de requisitos e de custos que nem todos conseguem arcar.