Isenção do T-MEC, realocação industrial e tarifas efetivas explicam a alta de 5,66% nas exportações mexicanas, e a renegociação do acordo será o grande desafio
Nos meses após o anúncio das novas tarifas americanas, o México conseguiu não apenas manter o ritmo de comércio com os Estados Unidos, como registrar um crescimento relevante nas vendas ao mercado norte-americano.
O movimento combina fatores como a isenção concedida a produtos que atendem ao T-MEC, a vantagem geográfica do México, e o realinhamento de cadeias globais de produção, fenômeno conhecido como nearshoring.
Essa dinâmica, porém, enfrenta uma prova essencial neste ano, com a renegociação do T-MEC e declarações políticas que colocam o futuro do acordo em dúvida, gerando incerteza para exportadores e investidores.
conforme informação divulgada pelo g1
Como o T-MEC blindou parte das exportações mexicanas
Uma das explicações centrais para o ganho mexicano foi a isenção prevista para produtos que cumprem as regras do T-MEC. Como destacou a analista Erica York, “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC“.
Antes das tarifas, muitos exportadores preferiam pagar tarifas baixas a enfrentar trâmites do acordo. Com o aumento das tarifas pelo governo Trump, essa relação custo-benefício mudou, e empresas passaram a certificar suas cadeias para aproveitar a isenção.
Segundo York, em 2024 cerca de 38% das importações americanas vindas do Canadá e 49% das vindas do México estavam sob o tratado, percentuais que subiram nas últimas meses para cerca de 86% a 87% dos produtos, o que explica a redução do impacto tarifário sobre mercadorias mexicanas.
Números e setores que explicam o ganho
Dados do Modelo de Orçamento Penn Wharton (PWBM) mostram que a tarifa efetiva para produtos mexicanos foi de 4,6% em outubro de 2025, contra 3,9% do Canadá e 37,1% para a China, o que ilustra a diferença de tratamento entre parceiros comerciais.
Na média global, a tarifa efetiva de importação ficou em 10,91% em outubro de 2025, um salto frente aos 2,2% registrados em janeiro de 2025, antes do segundo mandato de Donald Trump.
Na prática, o México registrou um crescimento de 5,66% nas exportações para os Estados Unidos em 2025, e seis meses consecutivos de alta nos dados oficiais até novembro, segundo números citados pelo g1.
Nem todos os setores, porém, foram igualmente beneficiados. O setor automotivo cresceu apenas 0,9% em 2025, resultado abaixo do esperado, enquanto segmentos como aço e alumínio sofreram com tarifas de 25% e retração nas exportações.
Por que o México ganhou, e por que isso pode ser temporário
Para o especialista Mario Campa, “Quando você, como comprador nos Estados Unidos, seja consumidor ou empresa, começa a observar que as tarifas estão subindo por todos os lados, irá se dirigir ao país que conseguiu a menor alíquota“. Essa lógica de substituição favoreceu fornecedores mexicanos.
Além disso, contratos e estoques previamente fechados para fornecedores de outras regiões foram sendo consumidos, abrindo espaço para produtos fabricados no México. Campa observa que, assim, “o México está se consolidando no primeiro lugar entre as importações americanas“.
Ao mesmo tempo, analistas alertam que esse cenário pode ser uma fotografia momentânea, porque as tarifas de 2025 são mais amplas e erráticas, e padrões de ganhadores e perdedores podem mudar conforme as negociações evoluem.
O teste decisivo na renegociação do T-MEC e as alternativas do México
O grande risco para a continuidade dessa vantagem aparece na negociação marcada para este ano. Com declarações de Donald Trump dizendo que o T-MEC parece “irrelevante“, aumentaram-se temores de mudanças estruturais ou mesmo de ruptura do acordo.
Repercussões políticas apareceram rapidamente. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou estar “certa de que nossa relação comercial com os Estados Unidos irá continuar“, enquanto o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, assinou acordos com a China, movimento visto por analistas como um sinal negativo para a coordenação do bloco.
Segundo Mario Campa, os cenários vão do mais favorável, com renovação do acordo, até a possibilidade de desintegração do bloco, e há ainda opções intermediárias que podem premiar ou prejudicar sectores diferentes.
Para mitigar riscos, o governo mexicano tem discutido planos de diversificação, como o “Plano México” anunciado pela presidente Sheinbaum no início de 2025. Campa recomenda que o país dê mais visibilidade a alternativas, avaliando planos B ou C para reduzir dependência dos Estados Unidos.
Em resumo, as tarifas de Trump criaram uma janela de oportunidade para o México consolidar-se como fornecedor para os EUA, apoiada pelo T-MEC, pela proximidade logística e pela realocação industrial. A grande prova agora é se essa vantagem resistirá à renegociação do tratado e à volatilidade política, ou se será apenas um ganho temporário.