Governo brasileiro teme que a União Europeia recue na reta final para o acordo com o Mercosul, o que poderia encerrar negociações de 25 anos.
O governo brasileiro expressa preocupação com um possível recuo da União Europeia (UE) na iminência da assinatura do acordo comercial entre os blocos, prevista para o próximo sábado (20/12) em Foz do Iguaçu. A semana que se inicia é considerada decisiva, pois o tratado precisa ser aprovado em votações cruciais no Parlamento Europeu e no Conselho Europeu.
Fontes com conhecimento das negociações informaram à BBC News Brasil que a não assinatura do acordo neste momento pode representar o fim das discussões, que se arrastam há um quarto de século. Na visão de uma das fontes, as chances de uma nova negociação seriam mínimas, levando o Brasil, a maior economia do Mercosul, a intensificar a busca por parcerias comerciais na Ásia.
Conforme informação divulgada pelo g1, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, iniciado em 1999, visa criar uma área de livre-comércio com redução de tarifas de importação e exportação. Se concretizado, formaria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, abrangendo cerca de 718 milhões de pessoas e um PIB de US$ 22 trilhões. A fase negocial foi concluída em 2024, mas a aprovação e assinatura ainda são etapas pendentes.
Votações Cruciais no Parlamento e Conselho Europeu Definirão o Futuro do Acordo
Para que o acordo seja assinado, é necessária a aprovação do Parlamento Europeu e do Conselho Europeu. Diplomatas europeus em Brasília indicaram que a aprovação no Parlamento, por maioria simples, não deve apresentar grandes dificuldades. No entanto, o desafio reside na votação do Conselho Europeu, que exige maioria qualificada: o aval de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, representando 65% da população do bloco (aproximadamente 451 milhões de habitantes).
França e Polônia Lideram Resistência, Enquanto Itália é Vista Como Fiel da Balança
Dentro do Mercosul, há consenso para a assinatura, mas na Europa as resistências persistem. Países como Alemanha, Espanha, Portugal e República Tcheca apoiam o acordo. Em contrapartida, França e Polônia são os principais opositores, com sinais de contrariedade também na Bélgica e Áustria. A França, por exemplo, teme o impacto da concorrência de produtos agropecuários sul-americanos em seus agricultores. Para mitigar essa preocupação, foram propostas salvaguardas que permitem a interrupção das vantagens tarifárias caso haja um aumento de 5% nas exportações do Mercosul em relação ao ano anterior. Essas salvaguardas também precisam ser votadas na próxima semana.
A Itália, com cerca de 59 milhões de habitantes, é vista por diplomatas brasileiros e europeus como o fiel da balança. Uma negativa italiana, somada à rejeição esperada da França e Polônia, poderia inviabilizar a aprovação do acordo, já que esses três países juntos representariam aproximadamente 36% da população do bloco. Apesar de um diplomata italiano ter sinalizado apoio ao acordo em uma reunião recente, o clima geral entre os europeus permanece de cautela.
Brasil Avalia Busca por Parceiros na Ásia em Caso de Fracasso do Acordo com a UE
Um auxiliar da Presidência da República, em caráter reservado, classificou um eventual recuo europeu como um reflexo da “fragilidade” das lideranças do bloco, argumentando que o acordo fortaleceria ambos os lados comercialmente, especialmente em um cenário de ataques ao multilateralismo. A rejeição europeia, segundo essa visão, demonstraria uma preferência por um acordo considerado “assimétrico” com os Estados Unidos, em detrimento de um tratado mais favorável com o Mercosul.
Diante da possibilidade de fracasso nas negociações com a UE, o Brasil e o Mercosul consideram intensificar a busca por novas parcerias comerciais na Ásia. Dados do governo brasileiro indicam que, em 2025, a China comprou US$ 94 bilhões em produtos brasileiros, valor que supera em mais do dobro os US$ 45 bilhões adquiridos pela União Europeia no mesmo período. Essa estratégia visa diversificar os mercados e fortalecer a posição comercial do bloco sul-americano globalmente.