Com juros altos e menor apetite por risco no Brasil, empresas buscam bolsas americanas por liquidez e comparáveis setoriais, e a perspectiva de cortes na Selic aumenta a chance de novas ofertas
As primeiras ofertas públicas de ações de empresas brasileiras após um hiato de quatro anos reaparecem, com o banco digital PicPay fazendo IPO nesta quinta-feira, dia 29, e o Agibank anunciando sua intenção de listagem sem data definida.
Esse movimento tem vários motivos, entre eles a busca por maior liquidez, visibilidade internacional e mercados com investidores mais inclinados a assumir riscos, como os Estados Unidos.
As informações e análises a seguir estão organizadas a partir dos dados e declarações compilados, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que empresas brasileiras escolhem a Nasdaq
Muitas companhias do setor financeiro e de pagamentos já estão listadas em Wall Street, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP, o que faz com que novas concorrentes avaliem a Nasdaq para ter comparáveis setoriais e acesso a investidores globais.
PicPay e Agibank optaram por esse caminho recentemente, com a listagem do PicPay ocorrendo nos Estados Unidos nesta quinta-feira, dia 29.
Como explica Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, “Essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”, explica.
Como os juros altos afetaram a oferta de ações
Um dos fatores centrais para a escassez de IPOs no Brasil foi a alta das taxas de juros internas, que tornaram a renda fixa muito mais atraente para investidores, reduzindo o apetite por risco.
Segundo especialistas ouvidos, a taxa Selic está atualmente em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos, o que encarece e desestimula operações de mercado de ações.
Como afirmou Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.
Bruno Saraiva, corresponsável pela área de banco de investimentos do Bank of America no Brasil, também ressalta o efeito sobre fundos de ações, “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”.
Greenlees acrescenta que “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.
No histórico recente, em 2021 a Selic subiu 7,25 pontos percentuais, de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro. Desde então, a taxa avançou até alcançar 15% em junho do ano passado, um aumento de 5,75 pontos percentuais em relação a 2021.
O que pode mudar nos próximos meses
Há sinais de que o cenário pode melhorar de forma gradual, com expectativa de início do ciclo de cortes da taxa básica de juros já no primeiro trimestre, o que tende a melhorar o apetite por ofertas de ações.
Dados do boletim Focus mostram que a Selic deve terminar o ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 pontos percentuais em relação ao patamar atual, o que abre espaço para retomadas pontuais no mercado de capitais.
Sobre essa perspectiva, Greenlees afirma, “Não sei se essa queda esperada dos juros é suficiente para termos um mercado abundante como no passado, mas é suficiente para retomar algumas ofertas. A taxa ainda deve permanecer elevada, mas, para os padrões brasileiros, já é um bom sinal”.
Bruno Saraiva tem visão cautelosa, “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”, conclui Saraiva.
Ele complementa, “Se houver uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027, independentemente do governo, e uma trajetória contínua de queda dos juros, acredito que voltaremos a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro”.
Como isso afeta empresas e investidores
Para empresas que buscam capital, a escolha entre B3 e bolsas estrangeiras envolve avaliar custo de capital, base de investidores e onde estão os pares de mercado. A listagem nos EUA pode oferecer maior liquidez e valuation, mas também exige governança e custos regulatórios mais altos.
Para investidores locais, a retomada de ofertas dependerá da recuperação do apetite por risco, da trajetória da Selic e de sinais claros sobre a política fiscal e o ambiente econômico no Brasil.
Em resumo, a retomada dos principais IPOs brasileiros depende de uma combinação de juros em queda, confiança macroeconômica e escolhas estratégicas das empresas, com o mercado americano aparecendo como alternativa atraente enquanto o ambiente doméstico se ajusta.