Por que empresas brasileiras escolhem Wall Street agora, como o PicPay listando na Nasdaq, frente à Selic em 15%, menor demanda local e expectativa de cortes do BC
IPOs brasileiros voltam a despertar atenção após um hiato de quatro anos, com o banco digital PicPay abrindo oferta nesta quinta-feira, dia 29.
Outra companhia anunciada é o Agibank, ainda sem data definida, e em ambos os casos a opção foi listar nos Estados Unidos.
Esses movimentos refletem uma combinação de juros elevados, menor apetite por risco e decisões estratégicas sobre onde captar recursos, conforme informação divulgada pelo g1.
O fator juros e o menor apetite por risco
Um dos motivos centrais para a redução das ofertas no Brasil é a alta das taxas de juros. Atualmente a Selic está em 15% ao ano, o que, segundo especialistas, torna a renda fixa muito atraente frente às ações.
Conforme reportagem do g1, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”, afirma Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA.
No histórico recente, a Selic subiu de 2% em janeiro de 2021 para 9,25% em dezembro de 2021, e seguiu até atingir 15% em junho do ano passado, segundo dados citados pela matéria. Em 2021 houve mais de 40 IPOs, mas o cenário mudou com a escalada dos juros.
O impacto foi sentido pelos fundos de ações, que perderam capitais e reduziram posições em renda variável. “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”, completa Greenlees.
Por que listar nos EUA e não na B3
A escolha pelo mercado americano envolve vários fatores, como setor de atuação, histórico da empresa e onde concorrentes estão listados. No caso do PicPay, a presença de pares como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP em Wall Street pesa na decisão.
Além disso, o ciclo de cortes nos Estados Unidos começou antes, com o Federal Reserve reduzindo taxas em 0,25 p.p. em setembro, para a faixa de 4% a 4,25%, e desde então aplicando mais dois cortes, levando os juros para a faixa de 3,50% a 3,75%, segundo o g1.
Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, ressalta que “essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”, conforme a reportagem.
O que esperar para os IPOs brasileiros
Especialistas consultados pelo g1 mostram otimismo cauteloso com a perspectiva de cortes da Selic já no primeiro trimestre, o que pode reativar parte das ofertas no Brasil.
O boletim Focus aponta que a Selic deve terminar o ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual, informa a matéria.
Bruno Saraiva, do Bank of America no Brasil, afirma que a retomada será gradual e limitada, “cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”, conforme citado pelo g1.
Analistas dizem que, se houver uma agenda de reformas e ajuste fiscal em 2027, e uma trajetória contínua de queda dos juros, o mercado de capitais brasileiro poderá voltar a níveis de atividade muito maiores do que os previstos para o curto prazo.
Implicações para investidores e empresas
Para empresas, listar no exterior pode ampliar a base de investidores e alinhar-se a benchmarks internacionais, mas traz custos e exigências regulatórias diferentes das da B3.
Para investidores locais, a retomada de IPOs dependerá da percepção sobre trajetória de juros, confiança nas contas públicas e volumes disponíveis em fundos de ações e multimercados.
No curto prazo, é esperada uma volta moderada dos IPOs brasileiros, especialmente se sinais de queda da Selic se confirmarem e o ambiente fiscal se estabilizar, segundo as avaliações apresentadas na reportagem do g1.