Banco Central registra avanço do endividamento público em 2025, com despesas de juros e estímulos do governo sendo apontados como fatores que mantêm a Selic em patamar elevado
A dívida bruta do setor público consolidado subiu para 78,7% do Produto Interno Bruto em 2025, o equivalente a R$ 10 trilhões, informou o Banco Central.
O nível representa aumento em relação ao fim de 2024, quando o endividamento estava em R$ 9 trilhões, ou 76,3% do PIB, e coloca pressão sobre taxas de juros e crescimento da economia.
As informações foram divulgadas pelo Banco Central e analisadas por especialistas, conforme informação divulgada pelo g1.
Como os gastos e os juros elevaram a dívida
Segundo o relatório do BC, o avanço da dívida pública em 2025 foi influenciado pelo aumento das despesas do governo e pelo custo mais alto do serviço da dívida. No terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a dívida já avançou sete pontos percentuais em três anos.
Entre as medidas que ampliaram gastos estão a PEC da transição, que ampliou o limite para gastos em cerca de R$ 170 bilhões por ano, o reajuste real do salário mínimo, a retomada dos pisos de saúde e educação, o pagamento de precatórios atrasados, que somam mais de R$ 100 bilhões, e reajustes a servidores públicos.
Além disso, programas e estímulos dirigidos à população também injetaram recursos na economia, como a ampliação do teto da faixa de renda do Minha Casa Minha Vida, de R$ 8 mil para R$ 12 mil, a liberação do saque-aniversário do FGTS, que injetou R$ 12 bilhões no ano passado e deve liberar mais R$ 7,8 bilhões em 2026, e a linha de consignado com garantia do FGTS, que já resultou na entrada de R$ 52 bilhões na economia.
Juros, causa e consequência
Para conter a inflação, o Banco Central elevou a taxa Selic para 15% ao ano em 2025, o maior nível em quase 20 anos. Como a Selic corrige boa parte da dívida pública, as despesas com juros do setor público atingiram R$ 1 trilhão no ano passado, ou 7,91% do PIB, segundo o BC.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem defendido que “A dívida está aumentando pelo juro alto, não está aumentando pelo déficit porque o déficit está menor”, atribuindo o avanço sobretudo ao custo do juros.
Analistas, porém, ressaltam que o aumento de gastos e dos estímulos tem obrigado o Banco Central a praticar juros mais altos para conter a inflação, elevando por consequência as despesas com juros da dívida pública.
O ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, também já alertou sobre a relação entre dívida e juros, ao dizer, em 2023, “Na parte dos juros, a gente não pode confundir causa e efeito. A dívida não e alta porque os juro é alto. É o contrário, o juro é alto porque a dívida é alta. Quando você endividado vai ao banco, e o banco faz uma análise que você é endividado e não paga a dívida, o juro é alto”.
Comparação internacional e projeções
No padrão do Fundo Monetário Internacional, que inclui títulos públicos na carteira do Banco Central, “a dívida do país somou 93,4% do PIB em dezembro do ano passado”, aponta o texto do BC, critério usado para comparações internacionais.
O Tesouro Nacional prevê que a dívida pública continuará avançando e atingirá 83,6% do PIB no fim de 2026, e projeta alta nos anos seguintes, indicando que o endividamento pode seguir elevado ao longo do atual mandato.
Relatórios internacionais, como do Banco Interamericano de Desenvolvimento, recomendam que países da América Latina reduzam dívida para patamares entre 46% e 55% do PIB, para melhorar a confiança dos investidores e permitir juros menores no futuro.
O ajuste fiscal necessário
Para tentar frear o crescimento da dívida, o governo aprovou em 2023 um novo arcabouço fiscal que limita a alta de gastos, entre outras regras. No entanto, analistas dizem que o arcabouço, da forma como está, não impediu a alta da dívida e poderá ser alvo de mudanças.
Especialistas estimam que será necessário um ajuste fiscal equivalente a cerca de dois pontos do PIB, para que o resultado primário caminhe de um déficit de 0,5% para um superávit de 1,5% do PIB. Esse ajuste ajudaria o BC a reduzir a Selic e, consequentemente, as despesas com juros.
Medidas citadas como possíveis caminhos incluem revisão de gastos com servidores por meio de reforma administrativa, mudanças no sistema previdenciário, revisão de benefícios sociais e desvinculação parcial de despesas com saúde e educação da receita.
O Tesouro e autoridades destacam que, além do ajuste fiscal, a redução sustentada da dívida depende de reformas que melhorem o ambiente de negócios e aumentem o crescimento do PIB, fatores que podem contribuir para a consolidação fiscal no médio prazo.