Queda do dólar segue depois de grandes oscilações, com impacto em importações, exportações e risco de aumento da inflação interna nos Estados Unidos
O dólar caiu para o seu ponto mais baixo dos últimos quatro anos em relação a uma cesta de moedas, e registrou recuos acentuados ante o euro e a libra, com uma baixa de 3% em cerca de uma semana.
O movimento renovou debates sobre se a moeda manterá seu papel central no sistema financeiro global, e sobre quais medidas o governo americano pode adotar para influenciar a taxa de câmbio.
Nos parágrafos seguintes explicamos, de forma clara, por que a queda do dólar ocorreu, quem são os principais atores e quais riscos essa tendência traz para a economia dos EUA e dos parceiros comerciais, conforme informação divulgada pelo g1.
O que aconteceu e os números por trás da queda
O índice do dólar, que acompanha seu valor em relação a uma cesta de moedas, caiu em quase 10% no ano passado, sendo o pior desempenho desde 2017. A recente pressão levou a moeda ao seu ponto mais baixo em quatro anos, e a perdas históricas frente ao euro e à libra.
Grande parte do declínio acelerado ocorreu após o chamado “Dia da Libertação”, em 2 de abril de 2025, com anúncios de tarifas de importação do presidente Donald Trump. A escalada de tensões com a Europa por causa da Groenlândia também pesou nas últimas semanas.
Por que o dólar está caindo, segundo analistas
Especialistas veem a queda do dólar como reflexo de preocupações dos mercados sobre a natureza errática de algumas políticas do governo americano. Robin Brooks, do Instituto Brookings, disse, “Na minha opinião, os mercados estão reagindo à natureza meio que irregular das políticas deste governo, as escaladas e atenuações”.
Chris Turner, chefe global de pesquisa de mercados financeiros do ING, afirmou que “A maioria das pessoas acredita que o dólar deveria, poderá e irá se enfraquecer ainda mais este ano”. Para Thierry Wizman, estrategista do grupo Macquarie, a rápida escalada das tensões comerciais “desencorajou as pessoas” e aumentou apostas em maior volatilidade.
Intervenção, juros e a aposta do mercado
Especulações sobre ações do governo, incluindo vendas coordenadas de dólares com parceiros como o Japão para fortalecer outras moedas, alimentaram a volatilidade. Comentários oficiais negando intervenção chegaram a acalmar parte do movimento, mas a incerteza persiste.
A direção futura do dólar também depende do ritmo de corte de juros pelo Federal Reserve. Se as taxas nos EUA caírem, investidores podem buscar retornos melhores no exterior, o que tende a enfraquecer ainda mais a moeda.
Impactos práticos: consumidores, mercados e políticas
Um dólar mais fraco reduz o poder de compra dos americanos para bens importados e viagens. Analistas alertam que, se a tendência continuar, pode haver pressão inflacionária interna por conta do aumento dos preços de itens importados.
A fuga de capitais para ativos considerados seguros ajudou a impulsionar o ouro, cuja cotação “dobrou no ano passado”, e algumas moedas internacionais, como o euro e a libra, se valorizaram em janeiro. Fundos de pensão de países como Holanda e Dinamarca reduziram posições em títulos do Tesouro americano.
O que o governo Trump pensa e o que pode mudar
O presidente Donald Trump e integrantes do governo já se manifestaram favoráveis a um dólar mais fraco, por entenderem que isso aumenta a competitividade das exportações. Em julho passado, Trump declarou, “Não parece bom, mas você ganha muito mais dinheiro com um dólar mais fraco… do que com um dólar forte”.
Além disso, a indicação de Kevin Warsh para chefiar o Federal Reserve gerou reação presidencial nas redes sociais, onde Trump escreveu, “Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvidas de que ele será lembrado como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor. Ele é perfeito para o papel e nunca decepciona”. A nomeação ainda precisa ser confirmada pelo Senado.
Se a liderança do Fed passar a favorecer cortes de juros mais rápidos, isso pode acelerar a tendência de queda do dólar, enquanto o governo pode ver esse cenário como vantajoso para exportadores, mas com custos para consumidores.
Resumo e perspectivas
A queda recente do dólar combina fatores políticos, decisões de investimento globais e expectativas sobre juros, e tem efeitos já observáveis em commodities e fluxos financeiros. Embora analistas, como o ING, projetem que o dólar pode cair mais, na ordem de 4% a 5% no ano, muitos também veem a possibilidade de que a recuperação seja temporária.
Para leitores e empresas brasileiras, acompanhar a evolução do câmbio e as decisões do Fed e da administração americana é essencial, porque variações adicionais na queda do dólar podem alterar preços de importação, exportação e pressões inflacionárias globais.