quinta-feira, junho 4, 2026

Como o imposto sobre bilionários na Califórnia de 5% a partir de US$ 1 bilhão provocou êxodo, ‘revolta’ no Vale do Silício e racha entre democratas

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Imposto sobre bilionários de 5% a partir de US$ 1 bilhão, retroativo a 1º de janeiro de 2026, levou a movimentações no Vale do Silício e a disputas políticas em ano eleitoral

O fim de 2025 registrou uma onda de movimentações entre alguns dos moradores mais ricos do Vale do Silício, motivada pela ameaça de um imposto sobre bilionários que propõe 5% sobre fortunas a partir de US$ 1 bilhão.

Relatos de mudanças de domicílio, abertura de escritórios em outros Estados e anúncios públicos de saída reacenderam o debate sobre tributação, inovação e responsabilidade fiscal na Califórnia.

Nas próximas seções, explicamos os detalhes da proposta, as reações de empresários e políticos, e as projeções fiscais que alimentam o embate, conforme informação divulgada pelo g1.

Detalhes da proposta

A proposta foi apresentada pelo sindicato Service Employees International Union-United Healthcare Workers West, o SEIU-UHW, que representa mais de 120 mil profissionais de saúde na Califórnia.

Segundo o texto, residentes do Estado com fortunas a partir de US$ 1 bilhão estariam sujeitos ao imposto sobre bilionários, com alíquota progressiva que chega a 5% para quem tem US$ 1,1 bilhão ou mais, e incidência prática de 5% sobre quase todos os afetados.

Os autores citam a lista da Revista Forbes e afirmam que, entre os 204 bilionários da Califórnia, apenas um tem riqueza inferior a US$ 1,1 bilhão, o que implica que praticamente todos os 204 seriam tributados na alíquota máxima.

O imposto seria cobrado uma única vez, com opção de parcelamento em cinco anos, em parcelas de 1% acrescidas de “uma pequena taxa”. A cobrança seria aplicada retroativamente a todos os bilionários residentes do Estado em 1º de janeiro de 2026, o que motivou a urgência de quem tentou alterar domicílio no fim de 2025.

Para entrar em vigor, a medida precisa ser aprovada em consulta popular na eleição legislativa de novembro de 2026, e antes disso depende da coleta de 875 mil assinaturas para entrar na cédula.

Reações no Vale do Silício e movimentações de empresários

O anúncio da proposta desencadeou reações imediatas entre bilionários e investidores. Alguns demonstraram publicamente que estavam reduzindo laços com a Califórnia.

O investidor David Sacks publicou em 21 de dezembro em sua conta na rede social X a mensagem “Mensagem recebida”, e em 31 de dezembro comemorou publicamente a mudança da Craft Ventures para Austin, Texas, escrevendo, “Tenho o prazer de encerrar o ano anunciando que a Craft Ventures [empresa de capital de risco da qual é fundador] abriu um escritório em Austin [no Texas]. Que Deus abençoe o Texas e feliz ano novo!”

Peter Thiel anunciou a abertura de um escritório em Miami, e relatos da imprensa apontaram que Sergey Brin e Larry Page movimentaram ativos e empresas de responsabilidade limitada antes do Natal de 2025.

Críticos do imposto destacam que a medida tributa ativos e participações acionárias em vez de renda, e alertam para a necessidade de vendas de ações que poderiam impactar valores de empresas. O investidor Chamath Palihapitiya disse que “O desfecho inevitável será um êxodo dos empreendedores mais talentosos, que podem, e irão, optar por fundar suas empresas em Estados menos regressivos.”

Apesar das ameaças de saída, nomes como Jensen Huang, CEO da Nvidia, e Brian Chesky, fundador do Airbnb, descartaram planos de se mudar.

Argumentos dos apoiadores e projeções de arrecadação

Os idealizadores da proposta, incluindo acadêmicos da UC Berkeley e da UC Davis, justificam o imposto como resposta à chamada “crise fiscal aguda” provocada por cortes federais na saúde, e apresentam a medida como uma forma de compensar perdas e manter serviços.

Os autores afirmam que “Novas receitas são necessárias para atenuar o impacto desses danos”, e projetam arrecadação de cerca de US$ 100 bilhões ao longo de cinco anos, sendo US$ 20 bilhões por ano, de 2027 a 2031.

Pela proposta, 90% da receita seria destinada à saúde, e o restante a assistência alimentar e educação. Os autores também argumentam que tributar riqueza corrige distorções, já que estudos citados indicam que, de 2018 a 2020, bilionários pagaram 24% de sua verdadeira renda econômica em impostos, enquanto a média nacional dos EUA foi de 30%.

Os especialistas citados observam que a maior parte da riqueza dos super-ricos está em ativos não realizados, e que o sistema atual só tributa ganhos quando há venda, razão pela qual um imposto sobre riqueza poderia ampliar a contribuição dos mais ricos.

Política, divisão no Partido Democrata e riscos eleitorais

O debate expôs divisões entre progressistas e moderados no Partido Democrata. Nomes como Bernie Sanders e o deputado Ro Khanna apoiaram a proposta, enquanto o governador democrata Gavin Newsom prometeu lutar para impedir que a pergunta chegue à cédula e se posicionou contra a medida.

Newsom argumenta que o imposto poderia inibir a inovação e tornar a Califórnia menos atraente para startups, e disse à imprensa que a mera introdução da proposta já prejudicou o Estado por provocar mudanças de domicílio e a saída de dólares de impostos.

O SEIU-UHW começou a coleta de assinaturas, mas opositores já mobilizam recursos, com doações de bilionários como Peter Thiel, que já doou US$ 3 milhões para campanhas contra a medida, segundo reportagens.

As autoridades fiscais da Califórnia, em análise conjunta, estimam que a proposta geraria dezenas de bilhões de dólares em receitas extraordinárias, ao mesmo tempo em que antecipam perda de receitas contínuas caso alguns bilionários deixem o Estado.

Brian Galle, um dos autores, afirmou que “Minha opinião é a de que falar é fácil”, ao descartar a hipótese de um êxodo em massa, e ressaltou que mudar domicílio fiscal envolve critérios complexos, como vínculos sociais, onde os filhos estudam e onde se trabalha.

Os defensores argumentam que, mesmo com um pagamento único de 5% no primeiro ano, muitos bilionários continuariam a ver suas fortunas crescerem, já que a valorização média dos ativos poderia superar a alíquota cobrada.

O que vem pela frente

Se o SEIU-UHW reunir 875 mil assinaturas, a proposta pode ir à votação em novembro de 2026, e, mesmo se aprovada, é esperada uma forte batalha judicial e política em torno da constitucionalidade e da aplicação retroativa da cobrança.

Enquanto isso, o debate sobre o imposto sobre bilionários segue alimentando discussões sobre justiça tributária, inovação e o papel do Estado em financiar serviços essenciais, em um momento em que a desigualdade volta ao centro do debate público.

As próximas semanas devem mostrar se a coleta de assinaturas terá sucesso, como será a mobilização de recursos dos dois lados, e se a Califórnia, Estado com mais de 200 bilionários, verá uma mudança significativa na residência fiscal de seus mais ricos moradores.

Este texto se baseia em informações divulgadas pelo g1.

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