Nova iniciativa para tributar bilionários na Califórnia, com alíquota progressiva até 5% para fortunas acima de US$ 1,1 bilhão, reacendeu o debate sobre êxodo fiscal e justiça social
A proposta que sugere um imposto sobre bilionários na Califórnia provocou reação imediata no Vale do Silício e abriu disputas internas no Partido Democrata.
Movimentos de transferência de escritórios e de domicílio de alguns bilionários alimentaram rumores de um possível êxodo fiscal e aumentaram a tensão política em um ano eleitoral.
O texto a seguir explica como funcionaria a taxa, quem a propôs, as estimativas de arrecadação, as críticas e o que está por vir, conforme informação divulgada pelo g1
Como funcionaria o imposto
A iniciativa foi apresentada pelo Service Employees International Union-United Healthcare Workers West, o SEIU-UHW, um sindicato que representa mais de 120 mil profissionais de saúde na Califórnia.
O projeto prevê tributar residentes do Estado com fortunas a partir de US$ 1 bilhão, com alíquota progressiva que chega a 5% para patrimônios de US$ 1,1 bilhão ou mais.
Na prática, quase todos os afetados pagariam a alíquota máxima, pois, de acordo com a lista citada pelos autores, apenas um entre os 204 bilionários da Califórnia tem fortuna abaixo de US$ 1,1 bilhão.
O imposto estadual seria pago uma única vez, com possibilidade de parcelamento em até cinco anos, em parcelas de 1%, acrescidas de “uma pequena taxa”, e só entraria em vigor se aprovado por consulta popular na eleição de novembro.
Reações e possíveis saídas
No fim de 2025, posts e anúncios públicos de alguns bilionários intensificaram a percepção de que haveria saída do Estado, como quando David Sacks escreveu “Mensagem recebida” em rede social, e depois postou, “Tenho o prazer de encerrar o ano anunciando que a Craft Ventures [empresa de capital de risco da qual é fundador] abriu um escritório em Austin [no Texas]. Que Deus abençoe o Texas e feliz ano novo!”.
Peter Thiel anunciou a abertura de um escritório em Miami, e reportagens indicaram que Sergey Brin e Larry Page retiraram ativos da Califórnia pouco antes do Natal.
Críticos levantaram riscos para startups e para o mercado de capitais, e houve manifestações públicas como a de Andy Fang, cofundador da DoorDash, que disse que ama a Califórnia, “mas propostas estúpidas de imposto sobre a fortuna como esta tornam irresponsável da minha parte não planejar sair do Estado”.
Por outro lado, líderes como Jensen Huang, da Nvidia, e Brian Chesky, do Airbnb, descartaram planos de mudança, mostrando que a reação entre bilionários não é unânime.
Argumentos econômicos e políticos
Os autores da proposta afirmam que o imposto visa compensar cortes federais em saúde e atender a uma suposta “crise fiscal aguda” no Estado, com a estimativa de arrecadar US$ 100 bilhões ao longo de cinco anos, ou cerca de US$ 20 bilhões por ano, destinando 90% da receita à saúde e o restante a assistência alimentar e educação.
O governador Gavin Newsom, democrata, prometeu campanha contra a medida, argumentando que ela poderia inibir inovação e que a mera introdução do tema já prejudicou o Estado ao “levar seus dólares de impostos com eles”.
Os autores também citam dados sobre carga tributária efetiva, escrevendo que, “incluindo todos os impostos em todos os níveis de governo, bilionários pagaram 24% de sua verdadeira renda econômica em impostos nos anos de 2018 a 2020, enquanto a média nacional dos EUA foi de 30%”.
Para os defensores, tributar a riqueza, e não apenas a renda realizada, corrige distorções porque muitos super-ricos mantêm sua fortuna em ações e ativos que só são tributados quando vendidos.
O professor Brian Galle, um dos autores, diz que, “Minha opinião é a de que falar é fácil”, e lembra que em casos anteriores ameaças de êxodo não se concretizaram de forma massiva. O professor Darien Shanske afirma, “O imposto de renda, mesmo que tenha alíquotas progressivas, em que as pessoas pagam mais conforme sua capacidade de pagar, não é muito eficiente em tributar os super-ricos”.
O que vem a seguir
Para que a proposta chegue às urnas é necessária a assinatura de 875 mil eleitores da Califórnia, etapa que o SEIU-UHW já iniciou, e só então o texto poderia constar na cédula em novembro.
Se alcançar a votação e for aprovado, o imposto seria calculado com base no patrimônio líquido em 31 de dezembro de 2026 e cobrado em 2027, mas analistas esperam disputas judiciais e campanhas intensas de ambos os lados.
Embora alguns especialistas prevejam saída pontual de residentes muito ricos, há consenso de que estabelecer domicílio fiscal fora do Estado envolve critérios complexos, e que mudanças imediatas e em massa são improváveis no curto prazo.
O debate na Califórnia reflete uma discussão mais ampla nos Estados Unidos sobre desigualdade, tributação dos mais ricos e o papel das finanças públicas em sustentar serviços como saúde, e promete influenciar o cenário político nacional nas próximas campanhas.
Leitura complementar, acompanhe a coleta de assinaturas e as reações políticas nas próximas semanas, enquanto o tema segue entre os assuntos centrais do ano eleitoral.