EUA de Trump mira fragmentar a União Europeia, buscando “aliados” em países como Hungria e Itália para enfraquecer o bloco.
Um rascunho vazado da nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, indica uma ambiciosa e controversa política externa voltada para a Europa. O documento sugere que a Casa Branca contempla a divisão da União Europeia, buscando persuadir países como Polônia, Áustria, Itália e Hungria a seguir um caminho semelhante ao do Brexit, a saída do Reino Unido do bloco.
A estratégia descreve a Europa como um continente em “declínio”, com preocupações sobre “censura” à liberdade de expressão, “opressão aos opositores políticos” e uma eventual “extinção civilizacional” devido à migração. No entanto, pontos mais delicados foram expostos por um vazamento obtido pelo portal americano Defense One, revelando planos de intensificar parcerias com Itália, Áustria, Polônia e Hungria “com o objetivo de separá-los da União Europeia”. A Casa Branca negou a existência de tal documento ao Defense One.
A análise desses planos levanta questões sobre quais países seriam mais suscetíveis a essa abordagem americana e por que justamente esses quatro foram destacados. A aproximação com a Hungria, por exemplo, é vista como menos surpreendente, dada a proximidade ideológica e política entre o primeiro-ministro Viktor Orbán e Donald Trump. Orbán, um crítico declarado da UE, já endossou Trump em 2016, e ambos parecem se beneficiar da desestabilização mútua das instituições que contestam.
Hungria, Itália, Polônia e Áustria: Os Alvos da Estratégia Americana
A Hungria, sob Viktor Orbán, é um caso notório de alinhamento com a retórica de Trump. Orbán, que frequentemente contesta as decisões da UE, encontra no apoio dos EUA um contraponto à pressão europeia. Há relatos de que os EUA teriam oferecido à Hungria um suporte financeiro de 20 bilhões de dólares, algo que Trump nega, mas que demonstra a disposição americana em oferecer ajuda a seu “bom amigo”, especialmente em um momento de turbulência econômica para o país e de fundos da UE congelados.
A Itália, com a primeira-ministra Giorgia Meloni, também entra no radar americano. Trump já elogiou Meloni e seu partido, mas analistas como Daniel Hegedüs, do German Marshall Fund of the United States, consideram um “equívoco” dos EUA acreditar que Meloni se oporia ativamente à UE. Embora haja proximidade ideológica com Orbán, Meloni tem adotado uma postura pragmática, compreendendo o valor de uma UE estável para o país.
A Polônia e a Áustria, embora não governadas diretamente por populistas de direita no momento, possuem fortes influências de partidos eurocéticos. Na Áustria, o Partido Liberal (FPÖ) lidera pesquisas recentes, e na Polônia, o partido conservador Direito e Justiça (PiS) ainda detém considerável influência. Essa conjuntura sugere que o governo Trump poderia encontrar terreno fértil para expandir sua influência em ambos os países.
Por Que Eslováquia e República Tcheca Ficaram de Fora da Lista?
A ausência da República Tcheca e da Eslováquia na lista de países mencionados no rascunho da estratégia de segurança americana causou surpresa. Na República Tcheca, o partido populista de direita ANO venceu as eleições parlamentares e formou uma coalizão com outros partidos de direita. Na Eslováquia, o governo de Robert Fico, cujo partido Smer-SD tem uma orientação nacionalista de direita, também sinaliza uma guinada à direita.
Tanto Andrej Babis (República Tcheca) quanto Robert Fico (Eslováquia) são declaradamente céticos em relação à UE e possuem potencial para gerar instabilidade nas decisões do bloco, especialmente em temas geopolíticos como a Rússia e a Ucrânia. Essas características poderiam ser vistas como úteis pelo governo Trump.
No entanto, segundo Hegedüs, a exclusão desses países da lista se deve às suas “raízes”. O ANO não se encaixa no espectro clássico de esquerda-direita, e o Smer-SD se considerava inicialmente de esquerda. “É possível ver claramente como a abordagem americana é idealizada”, afirma o cientista político, “Como o Smer e o ANO não têm uma origem populista de direita clássica, eles não são considerados aliados ideológicos, mesmo que talvez façam uma política útil para o governo de Trump.”
A Corrosão Gradual do Pacto Europeu
As tentativas americanas de interferir nos processos democráticos europeus não são novas. Discursos provocativos e o apoio a ideologias alinhadas com a visão de Trump, que enfraquecem Bruxelas, têm sido padrões recorrentes. O objetivo dos EUA, segundo analistas, não seria um “Huxit” ou “Italexit”, mas sim uma “lenta corrosão da integração europeia”.
Esse enfraquecimento poderia ocorrer por meio de apoio diplomático, político e financeiro a países que questionam as decisões conjuntas da UE. Um exemplo recente é a isenção de sanções russas concedida a Orbán, que desafia a política energética comum do bloco. A Hungria, com o apoio da Turquia, busca garantir o fornecimento de gás russo, contornando as decisões da UE.
A longo prazo, essa estratégia visa a enfraquecer a União Europeia, levando-a a perder sua importância no cenário global. A desunião e o questionamento constante das diretrizes europeias, incentivados por potências externas, podem minar a força e a coesão do bloco, alterando significativamente o equilíbrio geopolítico mundial.