Acordo de US$ 2 bilhões entre Caracas e Washington elevou embarques, mas a fraca demanda na Costa do Golfo dificulta absorver o petróleo venezuelano e amplia excedentes
As refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos tiveram um aumento rápido das importações de petróleo venezuelano nas últimas semanas, gerando pressão sobre preços e capacidade de compra.
Operadores do mercado dizem que parte dos volumes já está sem comprador e que a concorrência entre traders e produtores elevou os estoques disponíveis.
O cenário resulta de um acordo recente entre Caracas e Washington, e tem impactos imediatos na cadeia de refino, conforme informação divulgada pelo g1
Aumento de embarques e a origem do choque
O acordo de fornecimento de US$ 2 bilhões firmado entre Caracas e Washington, e a autorização para tradings e empresas como Vitol, Trafigura e Chevron negociarem o produto venezuelano, aceleraram os embarques.
No total, as exportações de petróleo da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro, segundo dados de monitoramento de navios citados pela reportagem.
As exportações totais para os Estados Unidos quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia, ante volumes próximos a zero após revogações de licenças em 2025.
Excesso de oferta e impacto nos preços
O aumento simultâneo das vendas deixou refinarias americanas relutantes em absorver todo o volume, pressionando os preços do petróleo pesado venezuelano.
Atualmente, cargas para entrega na Costa do Golfo estão sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro.
Segundo operadores, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes“, o que representa um desafio imediato para a estratégia de direcionar grande parte do petróleo venezuelano ao mercado americano.
Capacidade de processamento e restrições das refinarias
Levar refinarias americanas a operar em plena capacidade com o petróleo venezuelano pode levar tempo, porque alguns complexos precisam de ajustes para processar graus mais pesados.
O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que a empresa “pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos“.
A Chevron aumentou embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro, mas seu CEO Mike Wirth disse que a rede de refino da companhia consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela, o que indica sobra a ser armazenada ou revendida.
Destinos alternativos e competição global
Enquanto algumas cargas foram vendidas a refinarias nos EUA e na Europa, tradings fretaram petroleiros a destinos de armazenamento, especialmente no Caribe.
Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, dos portos venezuelanos em janeiro, sendo grande parte desse volume ainda não vendida.
A China, que era o principal destino, deixou de receber cargas desde a captura de Nicolás Maduro no início de janeiro, e autoridades americanas disseram que os EUA passariam a controlar as vendas por tempo indeterminado.
Pequim rejeitou esse controle e a estatal PetroChina orientou comerciantes a suspenderem novas negociações, enquanto a Índia surge como alternativa, com empresas como a Reliance avaliando compras.
O que as empresas e o mercado dizem
Fontes indicam que atrasos e renegociações de datas de descarga fizeram petroleiros aguardarem dias para descarregar em portos dos EUA, ou reduzirem velocidade de navegação para ajustar logística.
A Chevron, a Trafigura, a Vitol e a estatal venezuelana PDVSA não comentaram todos os pontos citados, e algumas cargas podem ser redirecionadas para armazenamento até que compradores apareçam.
Especialistas afirmam que, além de ajustes técnicos nas refinarias, o mercado precisará de tempo para equilibrar oferta e demanda, e que os preços continuam sendo o fator decisivo para ampliar o processamento do petróleo venezuelano.
O desfecho dependerá da capacidade das refinarias da Costa do Golfo de adaptar unidades, das estratégias de venda das tradings e das decisões políticas envolvendo controles e autorizações comerciais.