quinta-feira, junho 4, 2026

Venezuela sem Maduro, um mês depois: captura em operação dos EUA, Delcy Rodríguez assume, reaproximação com Washington, abertura do petróleo e anistia

Share

Venezuela sem Maduro vive ‘estabilidade tutelada’, com reformas no petróleo, promessa de anistia, mudanças no governo e pressão dos EUA sobre Delcy Rodríguez

Faz um mês desde a captura de Nicolás Maduro em uma operação dos Estados Unidos em 3 de janeiro, e o quadro político venezuelano mudou em ritmo acelerado.

Maduro foi capturado junto com sua esposa, Cilia Flores, e levado para Nova York para ser julgado por tráfico de drogas, e o comando do país passou para a vice-presidente Delcy Rodríguez.

Desde então houve reaproximação com Washington, abertura do setor petrolífero e anúncio de anistia, ao mesmo tempo em que o chavismo mantém parte de sua retórica e aparato, conforme informação divulgada pelo g1.

Estabilidade tutelada e nova relação com os EUA

A transição liderada por Delcy Rodríguez tem sido descrita como uma estabilidade tutelada, nas palavras de Guillermo Tell Aveledo, professor de Estudos Políticos da Universidade Metropolitana, “É uma ‘estabilidade tutelada'”.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamou Rodríguez de ‘formidável’ e afirmou, em 14 de janeiro, “Tudo está indo muito bem com a Venezuela”. Ao mesmo tempo, autoridades americanas deixaram claro que esperam resultados concretos, e o secretário de Estado Marco Rubio alertou que Rodríguez pode ter o mesmo destino de Maduro caso não cumpra os objetivos de Washington.

Representantes americanos já retomaram contatos diplomáticos, a nova chefe da missão dos EUA, Laura Dogu, foi recebida por Rodríguez, e houve convite para visita à Casa Branca em data ainda indefinida, evidenciando uma reconfiguração da relação bilateral.

Abertura do setor petrolífero e objetivo de investimentos

Uma reforma da lei do petróleo aprovada recentemente revoga, na prática, a nacionalização de 1976 e o modelo estatista de Hugo Chávez, permitindo que empresas privadas operem sem a exigência de participação minoritária da estatal PDVSA.

O governo Trump passou a controlar parte das vendas de petróleo venezuelano e a primeira operação rendeu US$ 500 milhões (R$ 2,62 bilhões). Para recuperar a indústria petrolífera, especialistas estimam que a Venezuela precise de cerca de US$ 150 bilhões (R$ 788 bilhões).

O analista Francisco Monaldi avaliou que “É a única maneira de obter investimentos relevantes”, apontando que a nova legislação reduz royalties, simplifica impostos e elimina exclusividade na exploração primária, visando atrair petroleiras como a Chevron.

Anistia, prisões políticas e direitos humanos

Delcy Rodríguez anunciou uma anistia geral que precisa ser votada pelo Parlamento, e a expectativa é que a medida resulte na libertação de presos políticos. Do lado de fora de unidades prisionais, familiares celebraram gritando “Liberdade, liberdade!” ao ouvir a notícia.

A ONG Foro Penal registrou que, até segunda-feira, 687 pessoas continuavam detidas por motivos políticos. Sobre a anistia, Alfredo Romero, diretor da ONG, afirmou que “Anistia, em princípio, significa esquecimento, não perdão”, e rejeita qualquer medida que gere impunidade.

Rodríguez também anunciou o fechamento do Helicoide, prisão denunciada há anos como centro de torturas, uma medida simbólica que alimenta expectativas, mas a aplicação prática e o alcance da anistia ainda são incertos.

Propaganda, Forças Armadas e continuidade do chavismo

Apesar das mudanças, o chavismo mantém aparato simbólico e militar. Ministérios e postos foram trocados, mas figuras como Diosdado Cabello e Vladimir Padrino permanecem por enquanto em cargos-chave.

O partido governista organiza manifestações contra o que chama de “sequestro” de Maduro, a TV estatal exibe conteúdos pedindo sua libertação, e no Forte Tiuna houve shows de luzes com drones mostrando o rosto de Maduro e Cilia Flores, além de trechos de sua declaração em Nova York, onde ele se definiu como “prisioneiro de guerra”.

O episódio que levou à captura incluiu uma ordem de Trump por um bombardeio, que “resultou na captura de Maduro e na morte de quase 100 pessoas, entre civis e militares”, conforme relatos, o que deixa um rastro humanitário e político difícil de ignorar.

Em síntese, a Venezuela sem Maduro vive uma fase de recalibragem, com abertura econômica e sinais de liberalização tática, sem ruptura total do chavismo, e sob forte influência e pressão dos Estados Unidos.

Leia Mais

Fique por dentro