Clientes do Master e do Will Bank dizem que encontraram dívidas registradas pelo BRB no SCR e no Registrato, mesmo após quitação ou sem nunca terem contraído empréstimos
Clientes que contrataram empréstimos ou serviços financeiros no Will Bank ou no Banco Master afirmam que passaram a encontrar dívidas registradas como ativas ou em atraso no Sistema de Informações de Créditos, o SCR, e no Registrato do Banco Central.
Segundo os relatos, os registros foram feitos pelo Banco de Brasília, o BRB, mesmo por clientes que nunca tiveram conta na instituição, ou que já haviam quitado os contratos junto ao Master ou ao Will Bank.
As informações e depoimentos sobre o caso foram obtidos por meio de apuração jornalística, conforme informação divulgada pelo g1.
Como os clientes descobriram as dívidas e quais são os impactos
Os clientes perceberam a situação ao consultar o Registrato, sistema do Banco Central que reúne dados que bancos e instituições financeiras compartilham com o BC.
Há relatos de contratos já quitados que aparecem como ativos ou inadimplentes, e também de débitos que, segundo consumidores, nunca existiram. Um cliente disse que teve um financiamento imobiliário negado por conta de uma pendência registrada, no valor de R$ 10 mil, que continuava sendo cobrada apesar de acordo prévio com o banco de origem.
O site Reclame Aqui registra ao menos uma centena de relatos semelhantes apenas em janeiro deste ano, enquanto outras 324 reclamações foram feitas entre agosto e dezembro de 2025. No mesmo período de 2024, houve 76 registros sobre o tema, um aumento de 326%, segundo os dados levantados na apuração.
Um dos clientes escreveu, ao relatar o caso, “Ao consultar meu histórico financeiro, identifiquei a existência de uma dívida em atraso junto ao Banco BRB no valor de R$ 19.600,07, a qual não reconheço. […] A informação disponível no registrato indica que se trata de um débito referente a cartão de crédito, porém nunca possuí cartão junto ao BRB, sendo que todos os meus cartões de outros bancos estão com suas faturas pagas e em dia”.
O que diz o BRB sobre os registros
O BRB informou que, após a liquidação do Will Bank, “deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas”.
Em nota, o banco acrescentou que, pelas regras contratuais, a instituição que originou os créditos deve acompanhar os pagamentos e, em seguida, fazer o envio dos dados e dos valores correspondentes ao BRB.
O banco também declarou que “Após a liquidação, esse fluxo não foi retomado ainda pelo liquidante, de modo que o BRB ainda não dispõe de informações suficientes para a baixa das operações. Por essa razão, alguns contratos apareceram como ativos ou inadimplentes no Sistema de Informações de Créditos (SCR), mesmo já tendo sido pagos no banco de origem”.
O BRB disse ter realizado conciliações internas e encaminhado comunicados ao liquidante solicitando a retomada do processo, e afirmou que está preparado para realizar a correção imediata dos dados assim que houver retorno do administrador do banco em liquidação.
Responsabilidades legais e orientações para consumidores
Especialistas consultados explicam que a transferência de carteiras de crédito é prática comum, mas que há regras a cumprir, entre elas a notificação do consumidor. Fabio Braga afirmou, “Para isso, os bancos discutem a estrutura desses contratos e os custos envolvidos. “Por quanto vou vender e qual será o desconto? Outro ponto importante é que, na negociação, também se define quem ficará responsável pela gestão dos pagamentos”, diz.
Pedro Ramunno explicou que “A ideia é que o consumidor saiba a quem deve pagar. Sem essa notificação, a cessão não produz todos os seus efeitos”. Ele acrescenta que a notificação deve ser feita por escrito, por e-mail, carta ou por instrumentos públicos, e que é necessário comprovar que o devedor tomou ciência da cessão.
Sobre a responsabilidade do banco comprador, Bruno Balduccini destacou que “A atualização deve ser imediata, porque o banco comprador passa a ter novos clientes que precisam ser classificados”, diz. Gustavo Kloh ressaltou que “O BRB não pode alegar que um terceiro seja responsável pelo registro de dívidas indevidas. O banco precisa fornecer informações corretas ao consumidor e não pode registrar uma situação de crédito equivocada”, explica Gustavo Kloh, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito do Rio de Janeiro, e completou, “Ele pode não ter culpa pelo problema, mas é responsável por apresentar uma solução”.
Na prática, os especialistas orientam que o consumidor primeiro entre em contato com a instituição e solicite, por escrito, o contrato, o valor atualizado, quem está cobrando e qual banco originou a dívida.
Conforme orientação de especialistas citados na apuração, “Se não há contrato, trata-se de uma cobrança indevida. Nesses casos, o consumidor deve formalizar a reclamação junto à instituição, gerar um protocolo e exigir a interrupção da cobrança”, disse Ramunno.
Se a resposta do banco não for satisfatória, a recomendação é registrar reclamação em órgãos como Procon e Consumidor.gov e, se necessário, avaliar medidas judiciais. Como advertiu Gustavo Kloh, “Pode ser que a situação seja regularizada com o tempo, mas isso pode demorar ou nem acontecer. Nesses casos, o consumidor pode ter que recorrer à Justiça, seja por meio do Juizado Especial ou da Justiça comum”, conclui Kloh.
Contexto das operações entre BRB, Master e Will Bank
O BRB vinha comprando carteiras do Banco Master desde 2024 e chegou a anunciar um acordo para comprar o banco em março de 2025, numa operação estimada em R$ 2 bilhões, mas a transação foi vetada pelo Banco Central em setembro.
Após a liquidação extrajudicial do Master, investigações da Polícia Federal apuraram um suposto esquema de fraudes bilionárias, em que o BRB teria comprado R$ 12 bilhões em carteiras de crédito de baixa qualidade, pertencentes ao Master e sem garantia financeira. Como compensação pelas carteiras problemáticas, o Master transferiu novas carteiras ao banco brasiliense, e nelas parte dos ativos teria sido originada pelo Will Bank, o que, segundo relatos, teria gerado os cadastros e notificações que hoje afetam clientes.
O caso segue em apuração e o BRB disse que segue atuando junto ao liquidante para normalizar a situação, cobrando os responsáveis pelo envio das informações para que a normalização ocorra no menor prazo possível.