quinta-feira, junho 4, 2026

Acordo Mercosul-UE adiado: França e Itália freiam assinatura de pacto comercial por temor agrícola

Share

Acordo Mercosul-União Europeia: o que está por trás do adiamento da assinatura que criaria a maior zona de livre comércio do mundo

Após quase 25 anos de negociações, a assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, prevista para este sábado (20), foi adiada para janeiro. A decisão ocorreu devido à pressão de países como França e Itália, que buscam maiores salvaguardas para seus agricultores diante da possibilidade de concorrência com produtos latino-americanos.

A Comissão Europeia planejava selar o pacto, que criaria a maior zona de livre comércio global, mas o plano foi alterado após a Itália se unir à França na exigência de um adiamento. A resistência desses países europeus coloca em xeque a conclusão de um acordo que já se arrasta por décadas.

Conforme informação divulgada pelo G1, a chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que houve um acordo para adiar ligeiramente a assinatura com os parceiros do Mercosul. Ela se mostrou confiante de que haverá maioria suficiente para concluir o acordo futuramente.

França lidera oposição com foco na agricultura

O presidente da França, Emmanuel Macron, foi enfático ao declarar que seu país não apoiará o acordo comercial sem a inclusão de novas salvaguardas para os agricultores franceses. Macron argumentou que, na visão francesa, “as contas não fecham” e que o acordo não pode ser assinado sob as condições atuais, antecipando que a França se oporá a qualquer tentativa de forçar a adoção do pacto.

Entre os agricultores franceses, o acordo com o Mercosul é visto como uma ameaça significativa. O principal receio é a concorrência com produtos latino-americanos que podem chegar ao mercado europeu com preços mais baixos e produzidos sob padrões ambientais e sanitários distintos dos europeus, o que poderia prejudicar a produção local.

Itália alinha-se à França, mas com ressalvas

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, indicou que o país pode apoiar o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, desde que as preocupações levantadas pelos agricultores italianos sejam atendidas. Meloni declarou que o governo italiano está pronto para assinar o acordo assim que as respostas necessárias aos agricultores forem dadas, um processo que depende das decisões da Comissão Europeia e que poderia ser resolvido rapidamente.

A posição italiana, embora alinhada à francesa em termos de proteção ao setor agrícola, demonstra uma abertura condicional, sugerindo que a resolução das demandas dos produtores pode destravar a assinatura do acordo. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, informou ter conversado com Meloni e que ela relatou um “constrangimento político” devido à pressão dos agricultores italianos, mas estaria confiante em convencê-los.

Alemanha e Espanha defendem avanço do acordo

Em contrapartida à resistência francesa e italiana, o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, defenderam que o bloco europeu avance no acordo. Alemanha, Espanha e países nórdicos avaliam que o tratado pode ser fundamental para compensar os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos europeus.

Esses países também veem no acordo uma forma de reduzir a dependência em relação à China, ampliando o acesso a minerais e a novos mercados. O chanceler alemão ressaltou a importância de o bloco manter sua credibilidade na política comercial global, indicando que “decisões precisam ser tomadas agora”.

Como funciona a aprovação e o que está em jogo

O processo de aprovação do acordo é discutido no Conselho Europeu, que formalmente autoriza a Comissão Europeia a ratificar o pacto. Para que seja aprovado, é necessária uma maioria qualificada: o apoio de pelo menos 15 dos 27 países do bloco, representando 65% da população da União Europeia. É nesta etapa que reside o principal risco político para o avanço do acordo.

Embora o debate público se concentre no agronegócio, o acordo entre Mercosul e União Europeia é mais amplo. Ele abrange também temas como indústria, serviços, investimentos, propriedade intelectual e insumos produtivos. O apoio de diferentes setores econômicos do bloco europeu a essas outras áreas do tratado explica, em parte, a complexidade das negociações e a diversidade de interesses em jogo.

Leia Mais

Fique por dentro