quinta-feira, junho 4, 2026

Como o pé de galinha virou iguaria e negócio lucrativo, China e África do Sul compraram US$ 221 milhões em 2025 e aqueceram a indústria pet do Brasil

Share

O crescimento das exportações de pé de galinha elevou preços no atacado, transformou sobras de açougue em produto valorizado, com a China pagando cerca de US$ 3 mil por tonelada

Pé de galinha deixou de ser sobra de açougue e virou item valioso para exportação e indústria nacional, com impacto em preço e em novos usos, como ração pet.

O movimento começou a ganhar força após a abertura do mercado chinês ao frango brasileiro em 2009, e se intensificou com vendas crescentes nos últimos anos.

No texto a seguir, veja como a China e a África do Sul mudaram o destino do miúdo, quanto o Brasil faturou com isso e como o produto é consumido nessas culturas, conforme informação divulgada pelo g1.

Como a China transformou o pé de galinha em negócio

Após a autorização para exportar carne de frango para a China, em 2009, o que antes era resto para açougues e frigoríficos passou a ter destino certo e preço de mercado, segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, ABPA.

Segundo o Ministério da Agricultura, "Só no ano passado, a indústria nacional faturou US$ 221 milhões com a venda do pé de galinha para a China, principal comprador do miúdo", e "O valor representou um aumento de 9,5% em relação às vendas de 2024".

Na avaliação de Santin, "A China é o mercado que melhor remunera o pé de galinha, pagando cerca de US$ 3 mil por tonelada".

Preços, mercados e indústria pet

No atacado brasileiro, o pé de galinha tem subido, com o preço médio estadual chegando a R$ 5,75 em 2026, e esse valor é 41,3% mais alto que a média registrada em 2020, segundo levantamento do analista Fernando Iglesias, do Safras & Mercado.

Além da China, a África do Sul é o segundo maior mercado para o produto brasileiro, "A África do Sul, segunda maior compradora do produto brasileiro, paga em média US$ 2 mil pela tonelada", afirma a fonte.

Apesar de importar bem menos que a China, "o país mais que quadriplicou as compras em 2025, na comparação com 2024, atingindo US$ 49 milhões", segundo dados citados.

Outro motor do preço e da demanda é a indústria pet, que usa o pé de frango para produzir farinhas e ração. Como ressalta Santin, "O pé de galinha que não é exportado, é destinado principalmente à indústria pet".

Consumo e preparo na China

Na China, o pé de galinha é consumido como snack, pronto para mastigar em estações de metrô, shoppings e lojas de rua, embalado e temperado.

A chef Jiang Pu recorda que, quando seus pais chegaram ao Brasil em 1998, "o pé de galinha era dado de graça no açougue. Tinha muita sobra, minha mãe pegava um monte".

Sobre o hábito, Jiang explica, "Você come o pé de galinha chupando, roendo ele, então demora um pouquinho. É para quando está com vontade de mastigar alguma coisa".

Na culinária chinesa, além do consumo direto, o pé de galinha é usado para engrossar caldos, por ser rico em colágeno, conferindo textura densa e gelatinosa a sopas e bases de outros pratos.

Tradição e criatividade na África do Sul

Na África do Sul, o pé de galinha é ingrediente central do prato conhecido como "walkie-talkie", feito com cabeça e pé de frango, e também aparece como "runaway" ou "Maotwana" em cardápios populares.

Mariana Bahia, da Câmara de Comércio Brasil – África do Sul, explica que, diferentemente da China, onde a textura crocante é valorizada, na África do Sul o pé é "bem cozidinho e ensopado, lembra o ensopado mineiro".

Essas receitas populares nasceram em contextos de restrição, quando cortes nobres eram inacessíveis, e mostraram a criatividade das cozinhas locais em aproveitar integralmente o animal.

Hoje, com mercados externos pagando bem e a indústria pet absorvendo parte da produção, o pé de galinha deixou de ser sobra e se consolidou como produto estratégico para o agronegócio brasileiro.

Leia Mais

Fique por dentro