Como o excesso de oferta global e a dinâmica de curto prazo das ameaças de Trump ao Irã e à Venezuela mantêm o preço do petróleo em patamar moderado, entre US$ 60 e US$ 65
O preço do petróleo permanece relativamente estável, mesmo diante de ameaças geopolíticas recentes envolvendo os Estados Unidos, o Irã e a Venezuela.
Analistas dizem que a razão principal é um excesso de oferta no mercado global, que limita impactos duradouros nos preços.
Essa avaliação e os exemplos de oscilações recentes foram reportados conforme informação divulgada pelo g1.
Efeito Trump e os choques imediatos no mercado
Nas primeiras semanas do ano, ações e declarações do presidente dos EUA provocaram picos rápidos nos mercados, mas sem sustentação. Por exemplo, após uma operação na Venezuela, o barril do petróleo Brent, referência para o mercado, subiu 1,6%, para US$ 61,76, e na sequência despencou 7%, para US$ 60,70, segundo dados citados pelo g1.
Quando Trump sugeriu a possibilidade de atacar o Irã, investidores reagiram com temor de interrupções na produção e no tráfego pelo Estreito de Ormuz, e o petróleo subiu mais de 4%, de US$ 63,87 para US$ 66,52. Dois dias depois, com recuos e negociações, os preços voltaram a ceder.
Esses movimentos mostram que, no curto prazo, o mercado reage a notícias, mas não necessariamente muda as expectativas estruturais sobre o preço do petróleo.
Por que o excesso de oferta domina as projeções
Especialistas consultados apontam que a dinâmica de oferta e demanda ainda é o principal determinante do preço do petróleo. “O mercado tem uma expectativa de baixa para os preços do petróleo. Há um consenso de que os balanços de oferta e demanda para 2026 indicam excesso de oferta”, disse o responsável pela cobertura de óleo e gás da XP, Régis Cardoso, conforme reportado pelo g1.
O diretor-geral da ANP, Artur Watt, avaliou que, apesar das incertezas geopolíticas terem provocado oscilações no curto prazo, “o preço do petróleo já vinha em trajetória de baixa. Mas é normal que as notícias tragam oscilações”.
Assim, a projeção prevalente é que o preço do petróleo fique entre US$ 60 e US$ 65 em 2026, nível que mantém projetos mais caros apenas na margem de viabilidade.
Impacto para o Brasil, entre inflação e receitas públicas
Para o Brasil, a manutenção do preço do petróleo nesse patamar tem efeitos opostos. Preços mais baixos ajudam a conter a inflação ao reduzir a pressão sobre gasolina e diesel, alívio importante para consumidores.
Por outro lado, a arrecadação cai com a redução de royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras, afetando receitas da União, estados e municípios produtores. Também há risco de menos investimentos das petroleiras quando a remuneração dos projetos diminui.
Além disso, especialistas lembram que, mesmo com queda do petróleo, o preço final aos consumidores depende de vários fatores. A Petrobras, por exemplo, anunciou uma redução de R$ 0,14 no preço médio da gasolina A no fim de janeiro, após três meses sem alterações, e afirma que seus preços representam apenas um terço do valor final pago nos postos.
Limites para recuperação da produção venezuelana e fatores técnicos
Mesmo se os EUA passassem a controlar vendas de petróleo da Venezuela, analistas indicam que os efeitos seriam sobretudo de curto prazo. Seriam necessários investimentos bilionários e anos para recuperar capacidade de produção.
Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, disse, “Algumas refinarias conseguem processar, mas isso exige tecnologia e conhecimento técnico. E essa é uma capacidade que a Venezuela hoje não tem”, conforme citado pelo g1. Estudos do IBP apontam que seriam necessários cerca de dois anos para iniciar projetos de retomada e pelo menos oito anos para recuperar níveis passados.
Na prática, isso reforça por que riscos geopolíticos podem gerar picos, mas não afastam, por enquanto, a tendência de um preço do petróleo moderado e estável ao longo de 2026.