A crescente demanda por cuidadores de idosos e acompanhantes de saúde, como auxiliares de enfermagem que ganham renda extra agendando exames, buscando remédios e acompanhando consultas
Profissionais combinam serviços por aplicativos, cobram por diária e enfrentam riscos da informalidade enquanto envelhecimento rápido da população amplia procura
Auxiliares de enfermagem e cuidadores de idosos têm encontrado uma forma de aumentar a renda ajudando pacientes a agendar exames, buscar remédios e acompanhar consultas, serviços que costumam ser combinados por aplicativos e contratados de forma informal.
O trabalho vai de acompanhar consultas e internações longas a tarefas pontuais, como levar pessoas com fobia de dirigir ao médico, retirar remédios de alto custo e auxiliar em cuidados específicos, como bolsa de nefrostomia.
Esses relatos e dados sobre remuneração, rotina e riscos da informalidade foram detalhados em reportagem da BBC News Brasil, que serviu de base para esta matéria, conforme reportagem da BBC News Brasil.
Como funcionam os serviços e relatos dos profissionais
Com formação no cuidado de idosos, Girlaine afirma que “não é necessário ter um curso como acompanhante de saúde ou em áreas relacionadas à enfermagem, por exemplo”. Ela explica que, assim como o cliente expõe suas demandas, o profissional também esclarece nas plataformas o que pode ou não fazer como parte do serviço.
Entre as experiências relatadas, Girlaine lembra, “Já fiquei mais de mês em uma UTI, próximo da finitude do paciente”. Edineusa Matos, auxiliar de enfermagem que atua como acompanhante há seis anos, conta que usa os períodos de folga do trabalho formal para aceitar acompanhamentos, “Como trabalho como auxiliar de enfermagem em um turno de 12 horas e descanso por 36 horas, muitas vezes consigo fazer esses trabalhos à parte”.
Edineusa relata atendimentos que variam muito, desde acompanhar um filho autista ao médico, atendendo à vontade da mãe de não usar transporte por aplicativo, até retirar remédios complexos em postos públicos e acompanhar pacientes em hemodiálise nos finais de semana. “No começo, eu não sabia como me ‘vender’. É preciso pensar como se projetar na plataforma. Hoje, eu tenho uma avaliação cinco estrelas, mas não foi fácil”, diz ela.
Quanto ganham, como cobram e impacto na renda
Os profissionais costumam cobrar por diária, com valores que variam conforme a complexidade do serviço. No caso de Edineusa, “Ela ganha R$ 2,6 mil por mês como auxiliar de enfermagem e conta que têm conseguido aumentar sua renda como acompanhante — em alguns meses, ganha com isso até mais do que como o emprego oficial”.
Sobre preços, Edineusa detalha, “O mínimo é R$ 130 o dia, dependendo do procedimento. Quando há um esforço maior do meu trabalho, pode chegar a R$ 260”. Para Girlaine, atuar como acompanhante também trouxe ganho financeiro, ela conseguiu “aumentar a renda em 35%”.
Com essa renda extra, profissionais como Edineusa relatam ter conseguido financiar objetivos pessoais importantes, por exemplo, a compra de um apartamento e planos de mudança de moradia, mostrando como a atividade informal pode se transformar em alívio financeiro para famílias.
Riscos da informalidade e quadro legal
Apesar da demanda, a ocupação de cuidador pode ser formalizada. O trabalho de cuidador tradicional é previsto na Classificação Brasileira de Ocupações, como “cuidador de idosos” e “cuidador em saúde”, o que permite contratação com carteira assinada, com atribuições como acompanhar em consultas e exames, auxiliar em exercícios leves e administrar medicamentos por via oral, desde que prescritos por um médico.
No mercado, é comum exigir curso de cuidador de idosos com carga mínima de 360 horas. Ainda assim, a categoria não tem um sindicato nacional unificado, existindo apenas entidades regionais e sindicatos próximos, e uma lei que regulamenta especificamente a profissão de cuidador de idosos tramita na Câmara dos Deputados.
A advogada trabalhista Patrícia Schüler Fava alerta para os limites entre trabalho eventual e vínculo empregatício, e afirma, “Pela legislação, comparecer à residência pelo menos três vezes por semana, mesmo que por poucas horas, já caracteriza a relação como trabalho doméstico”. Em trabalhos esporádicos, não há vínculo, e o pagamento costuma ser combinado por diária, mas a rotina pode obrigar formalização e direitos trabalhistas.
Envelhecimento da população, oferta de mão de obra e políticas públicas
Especialistas apontam que o envelhecimento acelerado e redes de apoio familiares menores explicam a crescente procura por cuidadores e acompanhantes. A médica Roberta França destaca, “Há 30 ou 40 anos, era comum ver babás em pracinhas, mas era raro encontrar cuidadores de idosos. Hoje, em 2025, acontece o contrário”.
França também diz, “Envelhecemos em 30 anos o que a Europa levou mais de 100. Mas, diferentemente da Europa, não enriquecemos antes de envelhecer e não nos preparamos para esse processo”. Para o demógrafo Márcio Minamiguchi, “a geração que hoje tem cerca de 80 anos já demanda mais esse tipo de cuidado como efeito de terem tido menos filhos e sua rede familiar ser mais reduzida do que era comum no passado”.
A antropóloga Valquíria Renk lembra que muitos brasileiros não têm condições financeiras para contratar cuidados profissionais, e que o trabalho acaba recaindo sobre familiares, geralmente mulheres, sem remuneração. A Política Nacional do Cuidado, proposta pelo governo federal, aprovada pelo Congresso e sancionada no final de 2024, busca reconhecer o cuidado como direito universal e distribuir responsabilidades entre Estado, famílias e setor privado, mas ainda depende de regulamentação, orçamento e implementação para produzir efeitos concretos.
Enquanto a formalização e a qualificação avançam lentamente, cresce a procura por cuidadores de idosos e acompanhantes de saúde que oferecem renda extra por serviços combinados informalmente, num cenário em que a demanda tende a aumentar e a oferta de mão de obra qualificada pode se manter restrita.