A ofensiva de Trump na Venezuela e o petróleo da Venezuela: como a volta dos EUA pode reconfigurar oferta, pressionar a Petrobras e mexer com a China
Intervenção americana pode acelerar aumento da produção venezuelana, criar concorrência por investimentos na margem equatorial brasileira e influenciar preços globais do petróleo
A ação do governo dos Estados Unidos na Venezuela abriu uma nova fase no mercado de energia da América Latina, com efeitos diretos sobre produção, preços e fluxos comerciais.
Empresas americanas e outros investidores internacionais podem voltar a disputar campos antes fechados, enquanto países da região se reposicionam para aproveitar oportunidades e riscos.
No pano de fundo, há preocupações sobre concorrência por investimentos, o papel da Petrobras e o abastecimento da China, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que a Venezuela importa tanto
O país sul-americano concentra reservas estratégicas, veja a dimensão do recurso, “Venezuela tem as maiores reservas mundiais de petróleo, com cerca de 17% do total.”
No entanto, a produção caiu muito desde a estatização do setor, pois a “capacidade de produção nacional despencou para cerca de 800 mil barris por dia”, muito abaixo de rivais globais.
Competição por investimentos e pressão sobre a Petrobras
Com o provável retorno de empresas americanas à Venezuela, surge uma alternativa atraente para o capital que vinha sendo direcionado a blocos no Brasil, especialmente na margem equatorial.
Segundo o economista Adriano Pires, “Você vai ter empresas de petróleo que vão começar a se questionar: coloco dinheiro na Venezuela ou coloco na margem equatorial? Está sendo criado um concorrente para esses investimentos”, o que tende a colocar a Petrobras sob pressão.
O Brasil, hoje o sétimo maior produtor mundial, também vive expectativa de crescimento, passando “dos menos de 4 milhões de barris por dia para uma expectativa de 5 milhões em 2027”, mas a competição pela atração de capitais pode alterar cronogramas e custos.
Efeito sobre oferta global e preços
O aumento da produção venezuelana deve ampliar a oferta mundial, pressionando os preços. Atualmente, o artigo do g1 registra que o “preço do barril, hoje negociado em torno de US$ 60” pode cair ainda mais com o acréscimo de oferta.
Analistas já esperavam queda nos próximos anos por uma oferta abundante sem aumento correspondente da demanda, e a recuperação venezuelana tende a acentuar esse movimento.
China, Guiana e nova geopolítica do óleo
As mudanças não afetam só produtores e preços, elas reposicionam compradores. Hoje, “Pequim é o destino de 80% do petróleo venezuelano, a custos inferiores aos do mercado”, o que transforma a disputa em questão geopolítica e comercial.
Pires destaca alinhamentos regionais que favorecem investidores norte-americanos, “Na Argentina, o governo de direita, do Milei, é alinhado a Trump. A Bolívia também recentemente teve uma eleição e a direita ganhou”, e lembra que “Você tem a Guiana, grande estrela de produção de óleo, cujos dois principais investidores são as americanas ExxonMobil e Chevron. Tem a Colômbia, onde haverá eleições este ano e parece que o favorito é o candidato da direita, assim como no Chile, onde a direita venceu.”
Para o especialista, o objetivo do presidente dos EUA foi frear o acesso chinês ao petróleo venezuelano e ganhar influência no mercado global, ele afirma, “O que ele quer, na realidade, é ter um controle maior sobre as reservas de petróleo mundiais, para poder dar um xeque-mate na China, que hoje é a segunda maior consumidora de petróleo no mundo, e ao mesmo tempo criar uma espécie de mini-OPEP para ele. Ele pode agora sentar à mesa e ser um player que define níveis de produção e automaticamente níveis de preço no mercado internacional de petróleo”.
Na avaliação de Pires, essa movimentação dá aos Estados Unidos mais peso no tabuleiro energético global, “No tabuleiro da geopolítica do petróleo, Trump passa a jogar com muito mais poder.”
Além disso, há impactos setoriais locais, como renegociação de contratos, possibilidade de retomada de parcerias e mudanças nos fluxos de exportação, já que empresas chinesas que atuam no Brasil “já produzem 350 mil barris por dia” e aumentam a interdependência entre Brasil e China no abastecimento.
Em resumo, o retorno dos EUA à Venezuela tende a mexer na dinâmica do petróleo da Venezuela e a reordenar investimentos na América Latina, com reflexos sobre preços, competição pela margem equatorial e nas relações comerciais com a China.