A volta dos IPOs brasileiros, por que PicPay e Agibank optaram por Wall Street agora, como os juros em 15% frearam ofertas e o que vem pela frente

O retorno dos IPOs brasileiros está ligado aos juros altos, ao menor apetite por risco e à preferência por bolsas americanas, cenário que pode mudar com cortes na Selic

Após quatro anos de hiato, empresas nacionais voltam a testar o mercado de ações, com o banco digital PicPay realizando um IPO em uma quinta-feira e o Agibank anunciando oferta sem data definida.

A opção por listar nos Estados Unidos tem relação direta com o ambiente de taxas no Brasil e com a busca por um universo maior de investidores, especialmente para companhias de tecnologia e pagamentos.

Especialistas apontam que a Selic em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos, reduziu a demanda por ações e afetou fundos de renda variável, contribuindo para a seca de IPOs no país.

conforme informação divulgada pelo g1

Por que os juros elevados frearam os IPOs brasileiros

Taxas de juros mais altas tornaram a renda fixa muito mais atraente, puxando recursos para títulos públicos em detrimento de fundos de ações e ofertas iniciais.

O texto publicado pelo g1 registra que, “só em 2021, ano em que o país registrou mais de 40 IPOs, a Selic subiu 7,25 pontos percentuais (p.p.), de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro“. Desde então, a Selic continuou subindo, “até alcançar 15% em junho do ano passado, um aumento de 5,75 p.p. em relação a 2021“.

Como observa Bruno Saraiva, do Bank of America, “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro“.

Roderick Greenlees, do Itaú BBA, resume o efeito sobre investidores, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa“.

Ele complementa que, “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário“.

Por que as empresas escolhem os EUA em vez de abrir capital aqui

Parte da explicação é técnica e estratégica, com empresas avaliando o setor, a tese de investimento, o histórico e onde concorrentes estão listados.

O g1 cita Leonardo Resende, da B3, ao lembrar que “Essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados“.

No caso do PicPay, há precedentes no setor financeiro e de pagamentos, com nomes como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP listados em Wall Street, o que torna a listagem americana uma via natural para comparabilidade e liquidez.

Além disso, o ciclo de cortes de juros nos Estados Unidos já começou, com o Federal Reserve reduzindo taxas desde setembro do ano passado, em contraste com o patamar elevado da Selic.

O que esperar para os IPOs brasileiros nos próximos meses

Há sinal de melhora, mas a retomada deve ser gradual. O boletim Focus indica que a Selic deve terminar o ano em 12,25% ao ano, “uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual“.

Greenlees avalia que “Não sei se essa queda esperada dos juros é suficiente para termos um mercado abundante como no passado, mas é suficiente para retomar algumas ofertas. A taxa ainda deve permanecer elevada, mas, para os padrões brasileiros, já é um bom sinal“.

Bruno Saraiva diz que “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil“.

Os especialistas acrescentam que, além da trajetória dos juros, fatores como cenário geopolítico e sinais de compromisso com as contas públicas do novo governo influenciam a decisão de levar empresas à B3 ou a mercados externos.

Casos recentes, lições e sinais práticos

O IPO do PicPay marca o fim de um hiato de quatro anos em ofertas iniciais relevantes no país, e o anúncio do Agibank reforça a tendência de empresas brasileiras testando Wall Street.

Para companhias com concorrentes já listados nos EUA, a listagem em Wall Street pode oferecer maior visibilidade global, bases de investidores mais amplas e referências de valuation mais constantes.

No entanto, executivos e banqueiros consultados pelo g1 lembram que abrir capital fora não é solução única, e que alguns emissores já conversam sobre fazer ofertas na B3 caso o ambiente doméstico melhore.

Por fim, a retomada mais ampla dos IPOs brasileiros depende de uma trajetória contínua de queda dos juros e de reformas que deem previsibilidade às contas públicas, fatores que podem devolver liquidez e apetite ao mercado de capitais.