Ação de Trump na Venezuela pode transformar o petróleo na América Latina, pressionar a Petrobras, reabrir mercado venezuelano e redesenhar exportações para a China

Intervenção americana pode reintroduzir a Venezuela ao mercado, deslocar investimentos para a margem equatorial brasileira, enfraquecer preços e alterar rotas de venda para a China

A ofensiva do governo de Donald Trump na Venezuela pode mudar o mapa do petróleo da América Latina, ao abrir espaços para empresas americanas e redesenhar fluxos de exportação, com impacto direto sobre o Brasil, Argentina, Guiana e produtores regionais.

Além de criar competição por blocos e campos, a retomada da produção venezuelana tende a reduzir o preço do barril, afetando decisões de investimento e o caixa de petroleiras que atuam na região.

Conforme informação divulgada pelo g1, especialistas avaliam que a reentrada dos EUA no mercado venezuelano terá efeitos geopolíticos e comerciais para toda a cadeia do petróleo na América Latina.

Por que o petróleo da Venezuela é estratégico

A Venezuela tem as maiores reservas mundiais de petróleo, com cerca de 17% do total, e por isso é um ativo de alto valor geopolítico e econômico. No entanto, a produção caiu, depois da estatização do setor na era chavista, e a capacidade de produção nacional despencou para cerca de 800 mil barris por dia.

Com essa redução, Caracas deixou de ser um fornecedor confiável para grandes mercados, e abriu espaço para que outros países da região acelerem projetos de exploração e exportação de petróleo e gás.

Competição por investimentos e pressão sobre a Petrobras

O retorno de empresas americanas e britânicas à Venezuela pode criar um novo concorrente para investimentos na chamada margem equatorial brasileira, área com quase 300 blocos identificados. Em 2025, após 12 anos, a companhia recebeu autorização para iniciar os estudos de prospecção em um desses blocos ao norte do Brasil, o que coloca a Petrobras em posição sensível.

Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura, observa que “Você vai ter empresas de petróleo que vão começar a se questionar: coloco dinheiro na Venezuela ou coloco na margem equatorial? Está sendo criado um concorrente para esses investimentos”, o que aponta para uma disputa por capital e tecnologia na região.

Impacto nos preços e na oferta global

O provável aumento da oferta venezuelana tende a pressionar ainda mais os preços, com o barril negociado atualmente em torno de US$ 60. Analistas já esperavam queda por oferta abundante sem aumento equivalente da demanda, e a retomada venezuelana pode acentuar esse movimento.

Preços mais baixos reduzem receitas, complicam planos de investimento e alteram prioridades operacionais das petroleiras, sobretudo em projetos de alto custo e risco, como os de águas profundas.

Alteração nas rotas de exportação, a China e o papel do Brasil

Enquanto a queda de preços aperta receitas, a mudança de regime em Caracas pode acelerar a competição por clientes, em especial a China. Segundo a fonte, “Pequim é o destino de 80% do petróleo venezuelano, a custos inferiores aos do mercado”, o que torna a reentrada americana relevante para a estratégia de Washington contra o acesso chinês ao óleo venezuelano.

O Brasil, que hoje é o sétimo maior produtor mundial, aparece em curva ascendente de produção, segundo os dados citados, “passando dos menos de 4 milhões de barris por dia para uma expectativa de 5 milhões em 2027”. Além disso, “as empresas chinesas de petróleo que compraram campos aqui no Brasil já produzem 350 mil barris por dia”, sinalizando laços comerciais fortes com Pequim.

Para Adriano Pires, o objetivo número 1 do presidente americano ao intervir na Venezuela foi barrar o acesso chinês ao petróleo do país e se tornar um player incontornável deste mercado, “O que ele quer, na realidade, é ter um controle maior sobre as reservas de petróleo mundiais, para poder dar um xeque-mate na China, que hoje é a segunda maior consumidora de petróleo no mundo, e ao mesmo tempo criar uma espécie de mini-OPEP para ele”, afirmou o especialista.

No tabuleiro geopolítico do petróleo, Pires resume, “Trump passa a jogar com muito mais poder”, o que pode transformar decisões sobre onde e como investir em exploração e produção na América Latina.

Em resumo, a movimentação dos EUA na Venezuela pode realinhar caminhos de produção e exportação de petróleo, criar nova concorrência por blocos na região e forçar empresas e governos a recalcular riscos e oportunidades em um ambiente de preços mais baixos e alta disputa geopolítica.