Acordo Mercosul-UE pode baratear vinhos europeus e ampliar oferta de chocolates premium no Brasil, com tarifas zeradas em prazos de até 15 anos, entenda
Com aprovação provisória pela União Europeia, o Acordo Mercosul-UE prevê eliminação gradual de tarifas, como 27% em vinhos e 20% em chocolates, mudando oferta e importações
O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia pode reduzir o preço de vinhos europeus no Brasil e ampliar a presença de chocolates premium, em um processo gradual que levará anos para se concretizar.
Especialistas ouvidos observam que a eliminação das tarifas deve aumentar a variedade de rótulos disponíveis e permitir que importadores ampliem canais de venda, mesmo que nem todos os produtos fiquem mais baratos para o consumidor final.
As informações a seguir são tratadas com base na cobertura do g1, conforme informação divulgada pelo g1
Como vinhos europeus podem ficar mais baratos
Atualmente, os países do Mercosul, bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, pagam uma taxa de 27% para importar vinhos da Europa. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, “essa taxa será zerada entre 8 a 12 anos, a depender do produto, disse o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) ao g1”.
Para especialistas, a redução das tarifas deve tornar viável a importação de vinhos europeus mais baratos, hoje pouco competitivos frente a rótulos do Chile e da Argentina. Roberto Kanter, professor de MBAs da FGV, afirma, “Com as tarifas atuais, é melhor você importar um vinho de 15 euros do que de cinco. Por quê? Porque a tarifa do imposto acaba igualando todos eles em uma faixa semelhante de preço e o cliente brasileiro que compra vinho da Europa já está disposto a pagar mais caro por ele”.
Kanter acrescenta, “Eu acredito que o consumidor brasileiro vai ser beneficiado. Ele vai passar a ter acesso a uma oferta muito maior de vinhos de qualidade média, a preços extremamente competitivos, muito mais do que você encontra hoje no mercado”.
Impactos para a produção e o mercado interno
O efeito sobre vinícolas nacionais deve ser gradual. O economista Marcos Troyjo, que liderou as negociações entre 2019 e 2020, observa que o calendário de eliminação de tarifas dá tempo para adaptação. Ele diz, “Alguém pode dizer: ‘poxa, mas vai ter muita competição do vinho europeu’. Mas na realidade, quando você tem uma um acordo desse, os consumidores passam a tomar mais vinho, você aumenta o número de fornecedores de garrafas, de rótulos, de rolhas”.
Troyjo complementa, “Aumenta também o número de vagas de emprego para garçons, para somelliers, ou seja, você dá um choque de expansão setorial”. Para produtores locais, isso significa desafios e oportunidades de especialização e exportação.
Chocolates premium, mais marcas, preços ainda elevados
Hoje, as importações de chocolate são taxadas em 20%. Conforme a matéria, “Já as importações de chocolate, hoje taxadas em 20%, terão dois prazos: uma parte dos produtos terá tarifa zero em 10 anos e a outra, em 15 anos”.
No caso dos chocolates, o Brasil já tem uma indústria extensa, com marcas que vão das populares às semipremium. Roberto Kanter observa, “Neste caso, o acordo não traz benefício algum. [Porque] O cacau é produzido aqui, os impostos são daqui”.
Para Kanter, o principal efeito será ampliar a presença de marcas premium que hoje não estão no mercado brasileiro e permitir que importadores ampliem a distribuição. “Ou seja, marcas que hoje se concentram nas grandes capitais, como a Lindt [que tem lojas, mas não fábricas no Brasil], poderão expandir suas operações, abrindo lojas e quiosques em cidades menores”.
Mesmo com maior oferta, o professor alerta que a chegada de produtos de alto padrão “não beneficia as classes B e C”, e que “Marcas de primeira linha de chocolates não são vendidas por um preço baixo exclusivamente porque têm tarifas de importação reduzidas. Para elas, o preço é uma consequência do posicionamento de mercado”.
Ele exemplifica, “Quem vai se beneficiar é a classe A, que em vez de comprar chocolate na Fauchon [loja francesa de gastronomia de luxo], vai poder comprar no Iguatemi, em São Paulo”. E reforça, “O preço de produtos importados de primeira linha nunca chegará ao nível de chocolates populares nacionais. Você não vai conseguir comprar uma uma caixinha de Godiva por R$ 7,90 nas Lojas Americanas. Isso não vai acontecer”.
O que ainda falta para o acordo valer
A aprovação na União Europeia foi feita de forma provisória, e para entrar em vigor são necessárias formalizações e prazos entre os dois blocos. Enquanto isso, o mercado e consumidores podem acompanhar mudanças graduais nos preços e na oferta ao longo dos próximos anos.
Em suma, o Acordo Mercosul-UE tende a ampliar a variedade de vinhos europeus no Brasil e a possibilitar maior presença de chocolates premium no varejo, com efeitos que devem ser sentidos ao longo de uma década, mais do que imediatamente.