Acordo Mercosul-UE pode baratear vinhos europeus e ampliar oferta de chocolates premium no Brasil, tarifas zeradas em até 15 anos e efeitos por setor

Acordo Mercosul-UE pode reduzir preços e ampliar rótulos no Brasil, com tarifa de importação de vinho zerada entre 8 a 12 anos, e chocolate em 10 e 15 anos

O acordo entre Mercosul e União Europeia aprovado provisoriamente pelos países europeus pode mudar o mercado de vinhos e chocolates no Brasil.

Alterações nas tarifas prometem ampliar a oferta de rótulos e permitir a chegada de marcas premium que hoje operam pouco no país.

Os efeitos devem ser graduais, e o impacto final depende de prazos e estratégias de importadores e produtores.

conforme informação divulgada pelo g1

Por que o vinho europeu pode baratear

A Europa concentra os maiores produtores mundiais, como Itália, França e Espanha, segundo a International Organisation of Vine and Wine.

No continente, “vinhos muito bons por dois, três, quatro euros” podem ser encontrados, segundo Roberto Kanter, professor de MBAs da FGV.

Hoje, o Brasil enfrenta uma carga tributária alta sobre vinhos europeus, o que desestimula a importação de rótulos mais baratos.

Na avaliação de Kanter, “Com as tarifas atuais, é melhor você importar um vinho de 15 euros do que de cinco. Por quê? Porque a tarifa do imposto acaba igualando todos eles em uma faixa semelhante de preço e o cliente brasileiro que compra vinho da Europa já está disposto a pagar mais caro por ele”, diz Kanter.

Ele acrescenta, “Eu acredito que o consumidor brasileiro vai ser beneficiado. Ele vai passar a ter acesso a uma oferta muito maior de vinhos de qualidade média, a preços extremamente competitivos, muito mais do que você encontra hoje no mercado”.

Como ficam as tarifas e os prazos

Atualmente, países do Mercosul pagam 27% para importar vinhos da Europa, e o imposto sobre chocolates é de 20%.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, “Caso o acordo entre em vigor, essa taxa será zerada entre 8 a 12 anos, a depender do produto” para o vinho.

Para o chocolate, o texto prevê dois prazos, com parte dos produtos tendo tarifa zero em 10 anos e outra parte em 15 anos. O g1 questionou o governo sobre quais produtos entram em cada prazo, mas não obteve resposta até a última atualização.

O acordo também prevê tarifa zero para importação de azeite de oliva da UE, porém o governo brasileiro já havia isentado o produto do imposto desde março deste ano.

Impacto para produtores, comércio e empregos

Como a eliminação de tarifas ocorrerá ao longo de anos, produtores brasileiros, hoje concentrados no Rio Grande do Sul, terão tempo para se adaptar.

O economista Marcos Troyjo, que liderou negociações entre 2019 e 2020, avalia que a competição deve expandir o setor, e cita que “Alguém pode dizer: ‘poxa, mas vai ter muita competição do vinho europeu’. Mas na realidade, quando você tem uma um acordo desse, os consumidores passam a tomar mais vinho, você aumenta o número de fornecedores de garrafas, de rótulos, de rolhas”, diz Troyjo.

Segundo ele, “Aumenta também o número de vagas de emprego para garçons, para somelliers, ou seja, você dá um choque de expansão setorial”.

Chocolates premium, mais variedade, nem sempre preços baixos

O Brasil já tem uma indústria de chocolate diversificada, com marcas que atendem desde o mercado popular até o segmento premium.

Para Kanter, “Para ele, os principais beneficiados serão os importadores. ‘Eles vão ganhar mais dinheiro. Com a tarifa menor, terão mais margem de lucro e isso vai permitir aumentar os canais de distribuição’, diz Kanter.”

O professor afirma que a mudança deve facilitar a chegada e a expansão de marcas premium, como a Lindt, e possibilitar mais pontos de venda fora das capitais.

Ele lembra que a entrada de grandes nomes nem sempre cabe no mercado quando o imposto e o câmbio tornam a operação inviável, citando que “A Godiva, por exemplo, já veio para o Brasil e depois saiu porque as condições econômicas não eram favoráveis”.

Kanter destaca que “A grande diferença é o acesso. O consumidor pode passar a encontrar marcas premium de chocolates europeus que hoje não estão no Brasil”.

Ao mesmo tempo, ele ressalta que “Marcas de primeira linha de chocolates não são vendidas por um preço baixo exclusivamente porque têm tarifas de importação reduzidas. Para elas, o preço é uma consequência do posicionamento de mercado”.

Em suas palavras, “Quem vai se beneficiar é a classe A, que em vez de comprar chocolate na Fauchon [loja francesa de gastronomia de luxo], vai poder comprar no Iguatemi, em São Paulo”.

E conclui que “O preço de produtos importados de primeira linha nunca chegará ao nível de chocolates populares nacionais. Você não vai conseguir comprar uma uma caixinha de Godiva por R$ 7,90 nas Lojas Americanas. Isso não vai acontecer”.

O efeito geral deve ser um aumento na oferta, uma possível queda gradual nos preços médios de alguns vinhos e mais presença de marcas importadas, enquanto o impacto sobre preços populares e cadeia produtiva interna dependerá de políticas, logística e estratégias comerciais.