Acordo UE-Mercosul avança entre elogios de líderes europeus e bloqueios de fazendeiros, enquanto cláusulas de proteção e números econômicos seguem no centro do debate
A aprovação provisória do Acordo UE-Mercosul na sexta-feira, 9, provocou reações opostas, com governos celebrando um marco comercial e produtores rurais mobilizados nas ruas.
Defensores dizem que o tratado fortalece a posição europeia no comércio e amplia acesso a matérias-primas estratégicas, enquanto críticos temem queda de preços e riscos ambientais.
Na sequência da aprovação provisória, a assinatura formal foi marcada para segunda-feira, 12, no Paraguai, mas a ratificação ainda depende de passos internos nos países membros e no Mercosul, conforme informação divulgada pelo g1
Reações políticas e argumentos a favor
Governos como Alemanha e Áustria saudaram o Acordo UE-Mercosul como uma vitória estratégica. O chanceler alemão Friedrich Merz classificou o texto como “marco histórico” para a política comercial da União Europeia.
A Comissão Europeia ressaltou que o pacto ultrapassa o setor agrícola, buscando reduzir dependência da China e garantir acesso a recursos como o lítio, essenciais para a transição energética.
O acordo é apontado como o maior da UE em termos de redução tarifária, com a expectativa de eliminar mais de 4 bilhões de euros por ano em impostos sobre exportações do bloco.
Protestos e preocupações dos agricultores
Enquanto isso, agricultores em vários países europeus fizeram protestos. Na Bélgica, tratores bloquearam rodovias, e na Polônia houve manifestações em Varsóvia contra a abertura do mercado a produtos sul-americanos.
Produtores temem concorrência desleal, alegando que carnes e outros alimentos vindos do Mercosul podem ter custos menores e regras ambientais diferentes das da União Europeia.
Na França, o presidente Emmanuel Macron chamou o tratado de “de outra época” e afirmou que há uma rejeição política unânime ao acordo no Parlamento francês, confirmando que a França votará contra a assinatura.
Cláusulas de proteção, críticas ambientais e números
A Comissão incluiu salvaguardas para produtos agrícolas sensíveis, com possibilidade de suspensão de acesso preferencial se houver aumento excessivo das importações ou queda acentuada de preços.
O gatilho para essas medidas foi reduzido de 8% para 5% após pressão de países como a Itália, além de previsão de reforço de auditorias sanitárias e controles de pesticidas e bem-estar animal.
Organizações ambientais, contudo, consideram frágeis as cláusulas, e a ONG Amigos da Terra classificou o tratado como “devastador para o clima”, alertando para riscos de avanço do desmatamento.
Em termos econômicos, a França lembrou que estudos da própria Comissão apontam impacto de apenas 0,05% no PIB da UE até 2040, argumento usado por críticos para questionar o custo-benefício do acordo para setores agrícolas.
Próximos passos e incertezas
Com a aprovação provisória, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está autorizada a assinar formalmente o texto na segunda-feira, 12, no Paraguai, mas a assinatura não encerra o processo.
O tratado ainda precisa passar por ratificação dentro da União Europeia e nos países do Mercosul, o que mantém o debate político e social aceso e indica possíveis ajustes e negociações futuras.
Além das salvaguardas, o orçamento da UE prevê um fundo de crise de 6,3 bilhões de euros para apoiar agricultores em caso de impactos negativos atribuídos ao acordo, mas dúvidas sobre efetividade e fiscalização permanecem.