Avanço do Acordo UE-Mercosul reacende disputa entre interesses comerciais, proteção ambiental, segurança alimentar e acesso a matérias-primas estratégicas
A aprovação provisória do Acordo UE-Mercosul nesta sexta-feira, dia 9, provocou reações imediatas e opostas entre governos, empresas, agricultores e ONGs.
Enquanto chanceleres e ministros celebraram o pacto como um ganho estratégico para o comércio europeu, produtores rurais fizeram protestos em várias capitais, temendo perda de preços e concorrência desleal.
No texto e nas declarações oficiais, o acordo é apresentado como ampliação de mercados e garantia de acesso a minerais como o lítio, com medidas de salvaguarda e fundos para mitigar impactos, conforme informação divulgada pelo g1.
Reações divergentes na Europa
Na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz qualificou o pacto como um “marco histórico” para a política comercial da União Europeia, e afirmou que o tratado é um sinal de força num cenário global instável.
A Áustria também saudou a formação de uma maioria a favor, com a ministra Beate Meinl-Reisinger dizendo, em tom de comemoração, que “Finalmente, há uma maioria entre os Estados-membros da UE a favor do acordo do Mercosul. Precisamente porque a ordem mundial está mudando drasticamente, a Europa precisa de novos parceiros”.
Por outro lado, ruas e estradas viraram palcos de insatisfação, com protestos de fazendeiros na Polônia, bloqueios com tratores na Bélgica e manifestações em frente à Assembleia Nacional na França.
Pontos centrais do acordo e mecanismos de proteção
Autoridades europeias defendem que o Acordo UE-Mercosul vai além do setor agrícola, reduzindo a dependência econômica de grandes parceiros e ampliando o acesso a matérias-primas, como o lítio, essencial para baterias e a transição energética.
A Comissão Europeia calcula que o pacto eliminará mais de 4 bilhões de euros por ano em impostos sobre exportações do bloco, e permitirá que empresas europeias concorram em mercados públicos do Mercosul nas mesmas condições que fornecedores locais.
Para tentar tranquilizar setores céticos, o texto inclui cláusulas de proteção, como a possibilidade de suspender importações agrícolas sensíveis em caso de desequilíbrio de mercado, limites acionadores de salvaguarda reduzidos de 8% para 5%, reforço de auditorias sanitárias e um fundo de crise de 6,3 bilhões de euros para apoiar agricultores afetados.
Críticas ambientais e ao impacto sobre a agricultura
Cotistas contrários afirmam que o tratado pode gerar concorrência desleal, porque produtos do Mercosul, especialmente carne bovina, costumam ser produzidos com custos e normas ambientais diferentes dos exigidos na UE.
A ONG Amigos da Terra descreveu o acordo como “devastador para o clima”, alertando que ele pode incentivar o avanço do desmatamento em áreas como a Amazônia ao ampliar a exportação de commodities agrícolas e matérias-primas.
O presidente francês Emmanuel Macron resumiu a preocupação política, afirmando que o tratado é “de outra época” e citou estudos da própria Comissão que indicam que o impacto sobre o PIB da UE seria de apenas 0,05% até 2040, argumento usado para justificar a rejeição francesa.
Próximos passos e o que esperar
Com a aprovação provisória, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está autorizada a assinar formalmente o acordo na segunda-feira, dia 12, no Paraguai, mas a assinatura não encerra o processo.
O tratado ainda precisará ser ratificado pelos Estados-membros da UE e pelos países do Mercosul, o que significa que o debate político, econômico e social continuará aberto nas próximas semanas e meses.
Nos próximos passos, serão monitoradas a aplicação das salvaguardas, os controles sanitários e a eficácia dos mecanismos de apoio aos agricultores, enquanto ambientalistas e setores rurais mantêm pressão por regras mais rígidas e garantias de proteção territorial.