quinta-feira, junho 4, 2026

Acordo UE-Mercosul: como o Brasil se tornou o nó central do tratado, abastecendo a União Europeia com energia e alimentos, enquanto depende da tecnologia europeia

Share

O Acordo UE-Mercosul reduz tarifas e cria regras comuns, e o Brasil concentra mais de 80% do comércio com o Mercosul, definindo a dinâmica entre os blocos

A assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia aproxima cadeias produtivas de dois continentes, com redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, que chegam a mais de 90% do comércio total entre os blocos.

O texto também estabelece regras para bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios, após mais de 25 anos de negociações, e revela uma relação econômica assimétrica, com o Brasil no centro.

Os dados e análises que seguem foram compilados a partir das informações divulgadas pelo g1, oferecendo números e vozes que explicam por que o Brasil ganha protagonismo no Acordo UE-Mercosul, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que o Brasil é o centro da relação

O Brasil concentra a maior parte do peso econômico nas trocas com a União Europeia, tornando-se interlocutor-chave na negociação do Acordo UE-Mercosul.

Segundo dados da Comissão Europeia citados pelo g1, o Brasil responde por mais de 82% de todas as importações europeias originadas no Mercosul e por cerca de 79% das exportações do bloco sul-americano destinadas ao velho continente, o que explica a centralidade brasileira.

O que o Brasil importa da UE e por que depende

As compras brasileiras junto ao bloco europeu estão concentradas em poucos parceiros e em produtos de alto valor tecnológico, essenciais para serviços públicos e indústria.

Em 2025, três países responderam, juntos, por cerca de 57% dos US$ 50,3 bilhões que o Brasil importou da UE. Alemanha: US$ 14,4 bilhões (28,6%); França: US$ 7,2 bilhões (14,3%); Itália: US$ 7,1 bilhões (14%).

Entre os principais itens importados estão medicamentos e produtos farmacêuticos: US$ 8,1 bilhões, autopeças: US$ 2,5 bilhões, motores e máquinas não elétricas: US$ 2,4 bilhões, aeronaves: US$ 1,2 bilhão, equipamentos de medição, verificação e controle: US$ 1,4 bilhão, compostos químicos: US$ 1,41 bilhão.

O diretor de Comércio Internacional e sócio da BMJ Consultoria, José Pimenta, ressalta o efeito das tarifas sobre os custos, “Em alguns casos, o produto chega a pagar 35% ou 40% sobre o valor. Um insumo que custa R$ 100 mil pode chegar a R$ 140 mil na mão do produtor. Com a retirada das tarifas, esse mesmo fertilizante poderia chegar por algo em torno de R$ 100 mil.”

O que a União Europeia ganha com o Brasil

Para a UE, o Brasil é fornecedor de insumos básicos e matérias-primas estratégicas que abastecem cadeias produtivas, além de garantir suprimento energético e alimentar.

Dos US$ 49,81 bilhões exportados pelo Brasil ao bloco europeu em 2025, 73% tiveram como destino cinco países. Holanda: US$ 11,7 bilhões (23,6%); Espanha: US$ 8,8 bilhões (17,7%); Alemanha: US$ 6,5 bilhões (13,1%); Itália: US$ 5,3 bilhões (10,8%); Bélgica: US$ 4 bilhões (8,1%).

Os principais produtos exportados incluem óleo bruto de petróleo: US$ 9,8 bilhões, café não torrado: US$ 7,1 bilhões, farelo de soja para alimentação animal: US$ 4 bilhões, minérios de cobre: US$ 3 bilhões, celulose: US$ 2,1 bilhões, minério de ferro: US$ 1,1 bilhão.

O pesquisador Leonardo Munhoz, do Centro de Bioeconomia da FGV, destaca que o tratado integra uma estratégia europeia de diversificação, “Foi visível o esforço desses países para viabilizar o acordo, que é visto como vantajoso para a União Europeia no contexto atual, especialmente pela necessidade de diversificação de mercados.”

Impactos para Argentina, Uruguai e Paraguai

Embora o Acordo UE-Mercosul seja negociado em bloco, a assimetria favorece o Brasil, e Argentina, Uruguai e Paraguai tendem a assumir papel secundário na dinâmica comercial.

Em 2024, as exportações brasileiras ao bloco europeu foram quase cinco vezes maiores que as argentinas, que somaram US$ 8,5 bilhões, ressaltando a distância entre os sócios do Mercosul.

Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp, afirma que “O ambiente atual é muito ruim para o diálogo, sobretudo diante das dificuldades de interlocução entre o governo brasileiro e a gestão de Javier Milei.” Ela observa que essa falta de coordenação regional reduziu a capacidade de articulação da Argentina durante a reta final das negociações.

O Uruguai tem mostrado crescimento e previsibilidade institucional, mas enfrenta limitações técnicas para atender a exigências ambientais da UE, enquanto o Paraguai, com peso econômico menor, ganhou relevância política ao assumir a presidência temporária do Mercosul em 2026, papel que conduz à etapa final de ratificação do acordo.

O Acordo UE-Mercosul, portanto, deve aproximar cadeias produtivas, baratear insumos para produtores brasileiros e garantir suprimentos estratégicos à Europa, ao mesmo tempo em que consolida o Brasil como peça central do relacionamento entre os dois blocos.

Leia Mais

Fique por dentro