Após aprovação provisória, o acordo UE-Mercosul é defendido como ferramenta para reduzir a dependência da China e garantir acesso a matérias-primas, enquanto oposição se intensifica
A aprovação provisória do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul gerou reações imediatas e antagônicas, com governos celebrando avanços e agricultores montando protestos nas ruas de vários países.
Autoridades dizem que o pacto fortalece a posição comercial da UE e amplia acesso a matérias-primas estratégicas, enquanto produtores rurais reclamam de concorrência e riscos à renda e ao meio ambiente.
Debates sobre salvaguardas, fundos de apoio e cláusulas ambientais prometem manter o tema em evidência, conforme informação divulgada pelo g1
Reações oficiais e argumentos a favor
Líderes europeus que apoiam o acordo apresentam o texto como um passo estratégico para diversificar parceiros comerciais e reduzir dependência de mercados como a China.
O chanceler alemão Friedrich Merz afirmou, “O acordo UE-Mercosul é um marco na política comercial europeia e um forte sinal da nossa soberania estratégica e capacidade de ação. Isso é bom para a Alemanha e para a Europa”, citando ganhos geopolíticos e econômicos.
A Áustria também comemorou, com a ministra Beate Meinl-Reisinger dizendo, “Finalmente, há uma maioria entre os Estados-membros da UE a favor do acordo do Mercosul. Precisamente porque a ordem mundial está mudando drasticamente, a Europa precisa de novos parceiros”.
A Comissão Europeia destaca que a expectativa é de eliminar mais de 4 bilhões de euros por ano em impostos sobre exportações do bloco e que empresas europeias terão acesso inédito a contratos públicos no Mercosul.
Protestos, preocupações do campo e críticas
Nas ruas, agricultores protagonizaram bloqueios e manifestações em países como França, Polônia e Bélgica, alertando para queda de preços e perdas de renda diante de produtos importados mais baratos.
A França se posicionou contra a assinatura e o presidente Emmanuel Macron afirmou que o tratado é “de outra época”, argumentando que os ganhos econômicos são limitados.
Organizações ambientais também criticam o texto, com a ONG Amigos da Terra afirmando que o acordo é “devastador para o clima” e pode incentivar desmatamento ao estimular exportações de commodities agrícolas.
Cláusulas, salvaguardas e números do acordo
Para tentar responder a críticas, o texto prevê mecanismos de proteção, incluindo a possibilidade de suspender o acesso preferencial de produtos agrícolas sensíveis em caso de desequilíbrios de mercado.
O limite que aciona essas salvaguardas foi reduzido de 8% para 5%, após pressão de países como a Itália, segundo a negociação final.
Além disso, o acordo inclui metas ambientais, como a prevenção de novos desmatamentos a partir de 2030, mas organizações dizem que essas cláusulas são frágeis.
Entre as medidas de mitigação, a Comissão propôs auditorias sanitárias reforçadas e um fundo de apoio de 6,3 bilhões de euros para auxiliar agricultores no caso de impactos negativos.
Críticos também lembram que estudos citados pelo governo francês indicam que o impacto do acordo sobre o PIB da UE seria de apenas 0,05% até 2040, porcentual usado para questionar a relação custo-benefício para setores estratégicos.
Próximos passos e possíveis desdobramentos
Com a aprovação provisória, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está autorizada a assinar formalmente o pacto na próxima segunda-feira, 12, no Paraguai, mas a assinatura não encerra o processo.
O tratado ainda precisará ser ratificado por parlamentos dentro da União Europeia e nos países do Mercosul, o que mantém aberto o debate político e social sobre impactos econômicos, ambientais e sobre a soberania alimentar.
Enquanto isso, a discussão pública deverá se concentrar nas salvaguardas, na fiscalização das importações e em como distribuir recursos do fundo de crise, temas que decidirão se o acordo terá aceitação ampla ou se permanecerá como foco de controvérsia.