Acordo UE-Mercosul: por que o Brasil é peça-chave do tratado, fornece energia e alimentos e lidera as negociações com a União Europeia

Acordo UE-Mercosul aproxima cadeias produtivas dos dois continentes, revela assimetria comercial e coloca o Brasil em posição central nas trocas e nas decisões

O acordo entre Mercosul e União Europeia, assinado após mais de 25 anos de negociação, reduz ou elimina gradualmente tarifas e cria regras comuns para bens industriais, agrícolas, investimentos e padrões regulatórios.

A pactuação vai aproximar cadeias produtivas estratégicas de dois continentes, ao mesmo tempo em que evidencia uma relação econômica assimétrica, em que o Brasil ocupa posição central nas trocas e nas negociações.

Nesta reportagem explicamos por que o país é o elo principal entre os blocos, quem depende do Brasil e de quem o Brasil depende, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que o Brasil virou o centro do Acordo UE-Mercosul

De acordo com dados da Comissão Europeia, o Brasil responde por mais de 82% de todas as importações europeias originadas no Mercosul e por cerca de 79% das exportações do bloco sul-americano destinadas ao velho continente. Com esse desenho, Argentina, Uruguai e Paraguai tendem a ocupar posição secundária na dinâmica do acordo.

Essa concentração faz com que a União Europeia tenha negociado em grande parte a partir da relação com o Brasil, porque o impacto comercial e político das medidas recai, sobretudo, sobre a economia brasileira.

Do que o Brasil depende na UE e como isso muda custos internos

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as compras brasileiras na UE estão concentradas em poucos parceiros. Em 2025, três países responderam, juntos, por cerca de 57% dos US$ 50,3 bilhões que o Brasil importou da UE.

Os números apontam, especificamente, Alemanha: US$ 14,4 bilhões, 28,6%, França: US$ 7,2 bilhões, 14,3% e Itália: US$ 7,1 bilhões, 14%.

A composição das importações evidencia dependência em bens de maior valor tecnológico, essenciais a serviços públicos e à indústria, como medicamentos e produtos farmacêuticos, autopeças, motores e máquinas, aeronaves e equipamentos de medição.

Entre os itens citados pelo MDIC, destacam-se, por exemplo, Medicamentos e produtos farmacêuticos: US$ 8,1 bilhões, Autopeças: US$ 2,5 bilhões, Motores e máquinas não elétricas: US$ 2,4 bilhões, Aeronaves: US$ 1,2 bilhão, Equipamentos de medição, verificação e controle: US$ 1,4 bilhão e Compostos químicos: US$ 1,41 bilhão.

Especialistas ouvidos apontam que a retirada de tarifas tende a baratear insumos importados da UE e reduzir custos de produção no Brasil, ao eliminar tributações que, em alguns casos, elevam o preço final em 35% ou 40%.

Quem depende do Brasil e a pauta exportadora para a União Europeia

Para a União Europeia, o Brasil é fornecedor de insumos básicos e matérias-primas estratégicas. Segundo dados do MDIC, dos US$ 49,81 bilhões exportados pelo Brasil ao bloco europeu em 2025, 73% tiveram como destino cinco países.

Os principais destinos foram Holanda: US$ 11,7 bilhões, 23,6%, Espanha: US$ 8,8 bilhões, 17,7%, Alemanha: US$ 6,5 bilhões, 13,1%, Itália: US$ 5,3 bilhões, 10,8% e Bélgica: US$ 4 bilhões, 8,1%.

A relevância da Holanda está ligada ao papel do país como hub logístico da UE, com destaque para o porto de Roterdã, porta de entrada para mercadorias que seguem a outros mercados do continente.

A pauta exportadora brasileira para a UE é concentrada em produtos primários e insumos industriais necessários a cadeias produtivas e ao abastecimento energético e alimentar europeu. Entre os principais itens, aparecem Óleo bruto de petróleo: US$ 9,8 bilhões, Café não torrado: US$ 7,1 bilhões, Farelo de soja para alimentação animal: US$ 4 bilhões, Minérios de cobre: US$ 3 bilhões, Celulose: US$ 2,1 bilhões e Minério de ferro: US$ 1,1 bilhão.

Impacto para os demais países do Mercosul

Embora o acordo tenha sido negociado em bloco, a estrutura é assimétrica, com o Brasil concentrando a maior parte do peso econômico e Argentina, Uruguai e Paraguai em escala menor. Essa diferença se reflete tanto nos fluxos comerciais quanto na capacidade de influência política.

Em 2024, as exportações brasileiras ao bloco europeu foram quase cinco vezes maiores que as argentinas, que somaram US$ 8,5 bilhões.

Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo, afirma, “O ambiente atual é muito ruim para o diálogo, sobretudo diante das dificuldades de interlocução entre o governo brasileiro e a gestão de Javier Milei.” Segundo especialistas, esse contexto político contribuiu para que o Brasil assumisse protagonismo diplomático no fechamento do acordo.

O Uruguai vem apresentando trajetória de crescimento nas trocas com a UE, enquanto o Paraguai, mesmo com peso econômico reduzido, ganhou protagonismo ao assumir a presidência temporária do Mercosul em 2026, função que conduz a etapa final de ratificação do acordo.

Em suma, o Acordo UE-Mercosul aproxima cadeias comerciais e tende a reduzir custos de produção no Brasil, ao mesmo tempo em que formaliza uma relação em que o país sul-americano fornece matérias-primas e insumos estratégicos à União Europeia, mantendo, porém, dependência em tecnologia e bens de alto valor agregado provenientes do bloco.