quinta-feira, junho 4, 2026

Acordo UE-Mercosul: por que o Brasil se torna peça-chave na relação com a União Europeia, fornecendo energia, alimentos e concentrando o poder comercial do bloco

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Como o Acordo UE-Mercosul expõe a assimetria entre blocos, com o Brasil respondendo por mais de 82% das importações europeias originadas no Mercosul e 79% das exportações

O tratado entre União Europeia e Mercosul aproxima cadeias produtivas entre continentes, enquanto revela uma relação econômica desigual, com o Brasil no centro dessa dinâmica.

Reduções tarifárias e regras comuns para bens, serviços e investimentos prometem ganhos, mas também expõem dependências industriais e energéticas de cada lado.

No desenho final, Argentina, Uruguai e Paraguai tendem a ficar em posição secundária, enquanto a negociação foi estruturada a partir da relação direta com o Brasil, conforme informação divulgada pelo g1

Por que o Brasil concentra a relação

O peso do Brasil no bloco sul-americano é claro nos números, O Brasil responde por mais de 82% de todas as importações europeias originadas no Mercosul e por cerca de 79% das exportações do bloco sul-americano destinadas ao velho continente.

Com essa concentração, a União Europeia negociou essencialmente a partir da relação com o Brasil, e não com o Mercosul como um conjunto homogêneo.

Do que o Brasil depende na União Europeia

As compras brasileiras na UE estão concentradas em poucos países, e em bens de maior valor tecnológico, essenciais para serviços públicos e indústria.

Em 2025, três países responderam, juntos, por cerca de 57% dos US$ 50,3 bilhões que o Brasil importou da UE, Alemanha: US$ 14,4 bilhões (28,6%), França: US$ 7,2 bilhões (14,3%), Itália: US$ 7,1 bilhões (14%).

Entre os principais itens importados estão medicamentos e produtos farmacêuticos, US$ 8,1 bilhões, autopeças, US$ 2,5 bilhões, motores e máquinas não elétricas, US$ 2,4 bilhões, aeronaves, US$ 1,2 bilhão, equipamentos de medição, verificação e controle, US$ 1,4 bilhão, e compostos químicos, US$ 1,41 bilhão.

O diretor José Pimenta destacou o efeito das tarifas sobre custos de produção, “Em alguns casos, o produto chega a pagar 35% ou 40% sobre o valor. Um insumo que custa R$ 100 mil pode chegar a R$ 140 mil na mão do produtor. Com a retirada das tarifas, esse mesmo fertilizante poderia chegar por algo em torno de R$ 100 mil.”

O que a União Europeia ganha com o Brasil

Para a UE, o Brasil é fornecedor de insumos básicos e matérias-primas estratégicas, fundamentais para abastecimento alimentar e energético do continente.

Dos US$ 49,81 bilhões exportados pelo Brasil à UE em 2025, 73% tiveram como destino cinco países, Holanda: US$ 11,7 bilhões (23,6%), Espanha: US$ 8,8 bilhões (17,7%), Alemanha: US$ 6,5 bilhões (13,1%), Itália: US$ 5,3 bilhões (10,8%), Bélgica: US$ 4 bilhões (8,1%).

Os principais produtos exportados incluem óleo bruto de petróleo, US$ 9,8 bilhões, café não torrado, US$ 7,1 bilhões, farelo de soja para alimentação animal, US$ 4 bilhões, minérios de cobre, US$ 3 bilhões, celulose, US$ 2,1 bilhões, e minério de ferro, US$ 1,1 bilhão.

Pesquisadores apontam que o interesse europeu vai além do comércio, sendo parte de uma estratégia para diversificar fornecedores em um contexto geopolítico tenso.

Impactos para Argentina, Uruguai e Paraguai

A estrutura do acordo deixa os parceiros do Mercosul em posição secundária, tanto na capacidade de comércio quanto na influência política durante as negociações.

Em 2024, as exportações brasileiras ao bloco europeu foram quase cinco vezes maiores que as argentinas, que somaram US$ 8,5 bilhões.

O Uruguai, apesar de crescimento na relação com a UE, enfrenta limitações técnicas para atender exigências ambientais, e o Paraguai tem peso econômico reduzido, com exportações da UE para o país em US$ 994 milhões e importações em US$ 416 milhões em 2024, e ganhou protagonismo político ao assumir a presidência temporária do Mercosul em 2026.

Especialistas avaliam que, sem coordenação regional consistente, o Brasil deve manter o protagonismo diplomático e econômico na implementação do acordo, enquanto os demais membros terão desafios para aproveitar plenamente as oportunidades.

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