Acordo UE-Mercosul: por que o Brasil se tornou o centro da relação, abastecendo a Europa com energia e alimentos, enquanto depende de tecnologia europeia, e o que muda com a eliminação de tarifas
Como o Acordo UE-Mercosul coloca o Brasil no epicentro das trocas, com mais de 82% das importações europeias do Mercosul vindo do país, e quais são os impactos
O novo tratado entre União Europeia e Mercosul aproxima cadeias produtivas de dois continentes, ao mesmo tempo em que expõe uma relação econômica assimétrica.
O desenho do acordo reduz ou elimina gradualmente tarifas que hoje incidem em mais de 90% do comércio entre os blocos, e estabelece regras para bens industriais, agrícolas, investimentos e padrões regulatórios.
Essas características colocam o Brasil no centro da negociação, com efeitos distintos para produtores, indústria e parceiros do Mercosul, conforme informação divulgada pelo g1.
Brasil, o polo central do acordo
O peso do Brasil na relação é evidente nos dados, já que o Brasil responde por mais de 82% de todas as importações europeias originadas no Mercosul e por cerca de 79% das exportações do bloco sul-americano destinadas ao velho continente, conforme divulgado pelo g1.
Com esse equilíbrio, a União Europeia conduziu boa parte da negociação a partir da relação com Brasília, enquanto Argentina, Uruguai e Paraguai passaram a ter papel secundário na dinâmica do acordo.
Do que o Brasil depende, e o que ganha
As importações brasileiras da UE são concentradas em poucos países e em bens de alto valor tecnológico, essenciais para indústria e serviços públicos.
Em 2025, três países responderam juntos por cerca de 57% dos US$ 50,3 bilhões que o Brasil importou da UE, Alemanha, US$ 14,4 bilhões, 28,6%, França, US$ 7,2 bilhões, 14,3%, e Itália, US$ 7,1 bilhões, 14%.
A composição dessas importações inclui medicamentos e produtos farmacêuticos, US$ 8,1 bilhões, autopeças, US$ 2,5 bilhões, motores e máquinas não elétricas, US$ 2,4 bilhões, aeronaves, US$ 1,2 bilhão, equipamentos de medição, verificação e controle, US$ 1,4 bilhão, e compostos químicos, US$ 1,41 bilhão.
O consultor José Pimenta destaca o efeito direto da retirada das tarifas nos custos de produção, afirmando, “Em alguns casos, o produto chega a pagar 35% ou 40% sobre o valor. Um insumo que custa R$ 100 mil pode chegar a R$ 140 mil na mão do produtor. Com a retirada das tarifas, esse mesmo fertilizante poderia chegar por algo em torno de R$ 100 mil.”
O que a União Europeia busca com o Brasil
Para a UE, o Brasil é fornecedor de insumos básicos e matérias-primas estratégicas, essenciais para cadeias produtivas e segurança alimentar do continente.
Dos US$ 49,81 bilhões exportados pelo Brasil ao bloco europeu em 2025, 73% tiveram como destino cinco países, Holanda, US$ 11,7 bilhões, 23,6%, Espanha, US$ 8,8 bilhões, 17,7%, Alemanha, US$ 6,5 bilhões, 13,1%, Itália, US$ 5,3 bilhões, 10,8%, e Bélgica, US$ 4 bilhões, 8,1%.
Os principais produtos brasileiros exportados à UE incluem óleo bruto de petróleo, US$ 9,8 bilhões, café não torrado, US$ 7,1 bilhões, farelo de soja para alimentação animal, US$ 4 bilhões, minérios de cobre, US$ 3 bilhões, celulose, US$ 2,1 bilhões, e minério de ferro, US$ 1,1 bilhão.
Mercosul assimétrico e próximos passos
A negociação em bloco disfarça desigualdades internas, já que Argentina, Uruguai e Paraguai têm participação bem menor nas trocas com a UE. Em 2024, as exportações brasileiras ao bloco europeu foram quase cinco vezes maiores que as argentinas, que somaram US$ 8,5 bilhões.
A professora Regiane Bressan observa a limitação política da articulação regional, afirmando, “O ambiente atual é muito ruim para o diálogo, sobretudo diante das dificuldades de interlocução entre o governo brasileiro e a gestão de Javier Milei.”
Mesmo com Argentina em segundo plano, Uruguai e Paraguai terão papel técnico e político nas etapas finais de implementação, e o Paraguai ganhou destaque ao assumir a presidência temporária do Mercosul em 2026, conduzindo a etapa final de ratificação do acordo.
O Acordo entre União Europeia e Mercosul promete alterar fluxos comerciais, reduzir custos de produção no Brasil por meio da desoneração de insumos, e colocar o país no centro de uma relação que combina dependência tecnológica com fornecimento de recursos estratégicos à Europa.