quinta-feira, junho 4, 2026

Alpinista deixou namorada morrer no Grossglockner e vai a julgamento, processo acende debate sobre responsabilidade em escaladas e risco penal

Share

O julgamento volta a discutir até que ponto a conduta em uma escalada, especialmente quando um dos parceiros é mais experiente, pode gerar responsabilidade penal

O caso gira em torno da morte de Kerstin G., que morreu de hipotermia durante uma escalada ao Grossglockner, com 3.798 metros, nas primeiras horas de 19 de janeiro de 2025.

O homem acusado, identificado pela mídia austríaca como Thomas P., nega as acusações, e seu advogado, Kurt Jelinek, descreveu a morte como “um acidente trágico“.

O processo provocou atenção e debate entre comunidades de montanhismo além da Áustria, porque a promotoria alega que ele deveria ser tratado como “o guia responsável pela excursão“, conforme informação divulgada pelo g1.

O que os promotores afirmam

Os promotores em Innsbruck dizem que Thomas P. era o parceiro mais experiente e, portanto, o responsável pelo planejamento e segurança da subida.

Eles publicaram uma lista com nove equívocos que, segundo a acusação, ele teria cometido, entre eles tentar a subida em condições invernais difíceis, sair com duas horas de atraso e não levar equipamento de emergência suficiente para um acampamento.

As autoridades relatam ventos de até 74 quilômetros por hora, temperatura de -8°C, com sensação térmica de -20°C, fatores que teriam tornado a volta ainda mais urgente, segundo a promotoria.

Versão da defesa e cronologia dos fatos

O advogado de Thomas P., Kurt Jelinek, afirma que o casal planejou a excursão em conjunto, e que ambos se consideravam experientes e bem equipados, com “experiência alpina relevante” e “ótimas condições físicas”.

De acordo com a defesa, o casal alcançou às 13h30 do dia 18 de janeiro um ponto chamado Frühstücksplatz, a partir do qual não havia mais retorno fácil, e prosseguiu porque não estavam exauridos ou sobrecarregados.

A controvérsia está nas horas seguintes, a defesa diz que a mulher apresentou sinais súbitos de exaustão e que o acusado subiu ao cume e desceu pelo outro lado para buscar ajuda, enquanto os promotores alegam que ele a deixou sozinha e não pediu socorro a tempo.

Provas e horários citados

Imagens de webcam mostram o casal escalando à noite, com as lanternas visíveis, e mais tarde capturam a figura iluminada do homem descendo do cume por volta das 2h da manhã, segundo a acusação.

Os promotores dizem que o casal ficou preso por volta das 20h50, que um helicóptero policial sobrevoou às 22h50 sem receber pedido de ajuda, e que o réu só ligou para a polícia de montanha às 00h35 do dia 19.

A promotoria afirma também que ele esperou até as 3h30 da manhã para notificar os serviços de emergência e não utilizou cobertores térmicos de alumínio para tentar proteger a mulher, o que teria sido crucial diante dos ventos e do frio.

Consequências legais e debate entre alpinistas

Se for considerado culpado, Thomas P. pode pegar até três anos de prisão, conforme a acusação. Um veredito de culpa pode representar, segundo o jornal austríaco Der Standard, “uma mudança de paradigma para os esportes de montanha”.

O caso levanta perguntas sobre até que ponto erros de julgamento e decisões de risco pessoal se tornam matéria criminal, e como isso pode afetar a forma como parceiros e guias planejam e conduzem escaladas no futuro.

Familiares e colegas de Kerstin G. e envolvidos no debate público destacam que ela era uma entusiasta das montanhas, e que sua morte por hipotermia na encosta congelada provocou comoção e muitos questionamentos sobre responsabilidade e preparo em ambientes extremos.

O julgamento promete examinar detalhes da preparação, comunicação durante a emergência e as escolhas feitas na montanha, e pode definir precedentes para casos semelhantes nas comunidades de escalada.

Leia Mais

Fique por dentro