Alpinista que deixou namorada morrer no Grossglockner vai a julgamento, acusações de negligência e debate sobre responsabilidade em esportes de montanha

Julgamento discute se a conduta do alpinista que teria deixado a namorada morrer configura crime, e qual será o impacto para companheiros de escalada e regras de responsabilidade

O caso envolve a morte por hipotermia de Kerstin G. durante uma escalada ao Grossglockner, na Áustria, em condições de frio extremo e nevasca.

Promotores afirmam que o namorado, identificado pela mídia como Thomas P., tinha mais experiência, planejou a subida e teria responsabilidades de liderança durante a excursão.

As informações sobre a sequência dos fatos e as acusações constam em reportagem do g1, conforme informação divulgada pelo g1.

O que os promotores dizem

Segundo a acusação, o alpinista era, por sua experiência, “o guia responsável pela excursão“, e cometeu uma série de erros desde o planejamento até a condução da noite na montanha.

Os promotores publicaram uma lista de nove supostos equívocos, entre eles, partir duas horas atrasado, não levar equipamento de acampamento suficiente, permitir o uso de botas inadequadas e prosseguir apesar de ventos de até 74 quilômetros por hora e temperatura de -8ºC, com sensação térmica de -20ºC.

De acordo com a acusação, o homem deixou a parceira desprotegida e exausta perto do cume durante a madrugada e demorou a chamar socorro, falhas que, segundo eles, resultaram na morte de Kerstin G.

Versão da defesa

O réu nega ter agido com negligência e, por meio do advogado Kurt Jelinek, afirma que o casal planejou a subida em conjunto, ambos se consideravam experientes e estavam bem equipados.

O defensor descreveu a morte como “um acidente trágico” e disse que o cliente está “profundamente arrependido” e apresentou condolências à família.

A defesa afirma que o alpinista chegou a ligar para a polícia de montanha na madrugada, pedindo ajuda, e que a situação mudou de forma inesperada quando a mulher passou a apresentar sinais de exaustão.

Timeline e evidências citadas

As narrativas divergem em pontos-chave, mas a sequência relatada em parte das apurações indica que o casal alcançou o ponto sem volta da trilha por volta das 13h30, teria ficado preso por volta das 20h50 e, por volta das 22h50, um helicóptero de polícia sobrevoou a área.

Imagens de webcam mostram lanternas enquanto subiam, e há registro visual do réu descendo iluminado por volta da madrugada. Promotores afirmam que ele deixou a mulher por volta das 2h, não usou cobertores térmicos e só notificou os serviços às 3h30, horário em que o resgate era inviável devido ao vento.

As autoridades dizem que Kerstin G. morreu sozinha na encosta, vítima de hipotermia, enquanto a defesa descreve esforços para buscar socorro assim que a situação se agravou.

Implicações legais e debate no montanhismo

O processo abre uma discussão sobre até onde a tomada de risco pessoal se transforma em responsabilidade criminal por terceiros quando há desequilíbrio de experiência entre companheiros.

O jornal austríaco Der Standard afirmou que, se for condenado, o caso pode representar “uma mudança de paradigma para os esportes de montanha“, ao tornar mais provável responsabilizar legalmente quem lidera ou planeja uma subida.

Se condenado, o alpinista pode pegar até três anos de prisão, segundo as autoridades citadas pela reportagem, e o veredito poderá influenciar futuras ações judiciais envolvendo acidentes em ambientes de alto risco.

O julgamento, além de atrair atenção na Áustria, provocou debate em comunidades de montanhismo internacionais sobre práticas de segurança, responsabilidades entre pares e limites da criminalização de decisões tomadas em condições extremas.