Prefeito de São Paulo contesta declaração do CEO da Enel sobre arborização, afirma que mais de 80% dos locais ficaram sem energia sem queda de árvores e pede responsabilidades
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, rebateu nesta segunda-feira uma declaração do CEO global da Enel sobre os apagões na região metropolitana, e cobrou responsabilidade da concessionária pela prestação do serviço.
Nunes afirmou que milhares de famílias foram afetadas por falhas que não podem ser justificadas apenas pela arborização urbana, e criticou o tom adotado pelo executivo da empresa.
As declarações e dados sobre o episódio foram relatados pela imprensa, conforme informação divulgada pelo g1.
Rebate do prefeito e críticas à Enel
Em resposta ao comentário do CEO da Enel, Ricardo Nunes afirmou, “Nem Jesus Cristo salva essa Enel. Muita cara de pau. Um deboche. O nível de incompetência é tão grande que, somado à capacidade de mentiras, chega a assustar. Mais de 80% dos locais que ficaram sem energia não tiveram queda de árvores”, e cobrou explicações sobre a capacidade operacional da distribuidora.
O prefeito falou durante evento público, e sua fala ganhou repercussão diante da sequência de apagões que atingiram a capital e a região metropolitana nos últimos meses. A declaração do executivo da Enel gerou um confronto direto entre o poder público municipal e a concessionária.
Posição da Enel, fala do CEO e laudos sobre podas
O CEO global da Enel, Flavio Cattaneo, disse que a rede aérea enfrenta dificuldades por causa da arborização urbana, que em tempestades danifica cabos e atrasa o restabelecimento. Segundo ele, “Na nossa avaliação, não se trata apenas de um problema da Enel. Se esse tipo de arborização continuar, só alguém seria capaz de resolver, e não é um ser humano, é Jesus Cristo, porque não há como evitar apagões de outra forma”.
A empresa também apresentou às autoridades resultados que apontariam melhora de 50% na qualidade do serviço prestado em São Paulo no último ano, segundo Cattaneo.
Além disso, a Enel informou ter feito um projeto-piloto que mapeou 770 mil árvores na área de concessão na Grande São Paulo, em parceria com prefeituras locais. No levantamento, a empresa apontou que, das 145 árvores que efetivamente caíram durante o apagão de dezembro de 2025, 9 tinham risco identificável, informação encaminhada à Agência Nacional de Energia Elétrica, Aneel.
Uma perícia contratada pela Enel, iniciada em outubro de 2024, concluiu que a principal causa das quedas de árvores foi a força do vento entre os dias 10 e 11 de dezembro, e que problemas secundários, como fungos, também contribuíram para o tombamento.
Aneel, processo de caducidade e pressão por decisão rápida
Os serviços da Enel estão sob forte escrutínio público desde o fim de 2024, quando concessionárias do grupo demoraram dias para restabelecer o fornecimento após eventos climáticos extremos. O grande apagão de dezembro afetou 4,4 milhões de consumidores, e passou a integrar as avaliações sobre o desempenho da distribuidora.
A Aneel começou a analisar um processo de eventual caducidade do contrato da Enel em São Paulo em novembro, mas a análise foi suspensa após pedido de vista do diretor Gentil Nogueira. O diretor pediu mais 60 dias para elaborar seu voto, alegando necessidade de garantir ampla defesa à empresa, após fiscalização que apontou desempenho insatisfatório no apagão de dezembro.
O pedido de prazo adicional já recebeu manifestação contrária do diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, que pediu deliberação em caráter de urgência. A disputa interna na agência e a apresentação de pareceres jurídicos por parte da Enel, incluindo análises que contestam a inclusão do apagão de dezembro na avaliação de caducidade, mantêm a questão em destaque.
Impactos, investimentos e próximos passos
Em meio à controvérsia, a Enel anunciou um plano global de investimentos de 53 bilhões de euros entre 2026 e 2028, com foco em energias renováveis. A empresa informou que cerca de 6,2 bilhões de euros serão destinados à América Latina, incluindo o Brasil, sujeito a um ambiente regulatório previsível.
Enquanto isso, autoridades municipais, consumidores e reguladores seguem exigindo clareza sobre causas dos apagões, medidas de mitigação e responsabilidade operacional. A agenda inclui a decisão da Aneel sobre prazos de análise do processo, a apresentação de laudos técnicos e a necessidade de respostas concretas da concessionária sobre a rede aérea e o plano de poda e manutenção das árvores.
O desenrolar dessas ações vai definir se o foco continuará na arborização como justificativa principal, ou se medidas administrativas e regulatórias mais duras serão aplicadas à Enel para garantir a confiabilidade do serviço.