Arábia Saudita bombardeia porto de Mukalla no Iêmen, acusa envio de armas pelos Emirados Árabes Unidos e aprofunda crise entre Riad e Abu Dhabi

Ataque mirou carregamento associado ao Conselho de Transição do Sul, provocou estado de emergência em áreas anti-houthis e elevou tensão entre Arábia Saudita e Emirados

Um ataque aéreo saudita atingiu na madrugada o porto de Mukalla, no Iêmen, em resposta a um suposto envio de armas vindo dos Emirados Árabes Unidos, segundo comunicado militar divulgado pela agência estatal da Arábia Saudita.

As forças anti-houthis que controlam parte do território iemenita declararam estado de emergência e impuseram proibição temporária de 72 horas a travessias de fronteira, além de restrições a entrada em aeroportos e portos marítimos sob seu controle.

O episódio intensificou a crise entre Riad e Abu Dhabi em um momento de alta sensibilidade no Mar Vermelho, com risco de novas escaladas no solo iemenita e em países vizinhos, conforme informação divulgada pelo g1

O que aconteceu em Mukalla

Segundo o comunicado militar saudita, o ataque ocorreu depois da chegada de navios vindos de Fujairah, cidade portuária nos Emirados Árabes Unidos, e visou armas e veículos descarregados em Mukalla.

Na nota, as autoridades afirmaram que “A tripulação dos navios desativou os dispositivos de rastreamento a bordo e descarregou uma grande quantidade de armas e veículos de combate em apoio às forças do Conselho de Transição do Sul”.

Também em comunicado, os militares justificaram a ação, dizendo que, “Considerando que as armas mencionadas constituem uma ameaça iminente e uma escalada que ameaça a paz e a estabilidade, a Força Aérea da Coalizão realizou, nesta manhã, um ataque aéreo limitado que teve como alvo armas e veículos militares descarregados dos dois navios em Mukalla”.

Quem são os envolvidos e como a crise se agravou

Mukalla fica na província de Hadramout, no Iêmen, a cerca de 480 quilômetros de Aden, cidade que se tornou sede das forças anti-houthis desde 2014.

O alvo do ataque foi associado a cargas destinadas ao Conselho de Transição do Sul, grupo separatista apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, que nos últimos dias assumiu controle de trechos em Hadramout e Mahra, expulsando forças alinhadas com a coalizão apoiada pela Arábia Saudita.

Analistas e imagens de redes sociais mostraram veículos blindados circulando por Mukalla após a chegada dos navios, e a imprensa aponta que um dos navios possivelmente envolvido foi identificado como a embarcação Greenland, do tipo roll-on/roll-off, que esteve em Fujairah em 22 de dezembro e chegou a Mukalla no domingo.

Reações e riscos de escalada

Não houve confirmação imediata sobre vítimas, e as autoridades sauditas disseram que o ataque foi feito durante a noite para evitar “dano colateral”, sem detalhar participação de outras forças na operação.

Mohammed al-Basha, especialista em Iêmen, declarou, “Espero uma escalada calculada de ambos os lados. O Conselho de Transição do Sul, apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, provavelmente responderá consolidando o controle”, apontando para uma maior polarização entre Riad e Abu Dhabi.

Fontes e analistas estimam que, após o ataque ao porto, o fluxo de armas dos Emirados para o Conselho de Transição do Sul poderá diminuir, em parte porque a Arábia Saudita controla o espaço aéreo da região.

Impacto regional e próximos passos

O episódio se soma a outras frentes de tensão, como confrontos no Sudão, onde Riad e Abu Dhabi apoiam lados opostos, e a ameaça de ataques por parte dos houthis, que reagiram com preocupação após o reconhecimento da Somalilândia por Israel.

O avanço dos separatistas do Sul e a resposta saudita desenham um cenário de confrontos localizados, com risco de afetar rotas marítimas e a estabilidade no Mar Vermelho, enquanto diplomacia e movimentos militares seguem determinantes para conter ou ampliar o conflito.

Autoridades dos Emirados Árabes Unidos não se manifestaram de imediato sobre as acusações, e a confirmação de detalhes sobre os navios e cargas ainda depende de investigações e checagens de rastreamento e imagens.