Ataque ao Irã: por que EUA e Israel veem uma janela única agora, quais são os riscos para a estabilidade regional e a lei internacional

A ofensiva foi apresentada como ação para conter perigos, mas evidências e contexto indicam que Estados Unidos e Israel avaliaram que o regime iraniano estava vulnerável e que a oportunidade não podia ser perdida

O ataque ao Irã foi justificado por Israel como uma ação “preventiva”, e pelos Estados Unidos como proteção contra ameaças, porém as provas públicas não mostram uma ameaça iminente que justificasse a medida como defesa imediata.

Decisões de guerra envolvem escolhas políticas, e fontes indicam que Israel e os EUA concluíram que o regime do Irã estava fragilizado por problemas econômicos, repressão a protestos e danos recentes a suas defesas.

Essas avaliações, e os discursos públicos dos líderes, moldaram a narrativa oficial e o cálculo estratégico dos aliados, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que EUA e Israel acreditaram que era a hora certa

Para Israel, o Irã é o inimigo declarado mais perigoso há décadas, e a ofensiva reflete a opção por maximizar o dano à capacidade militar iraniana enquanto Teerã estaria mais vulnerável.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu também encara eleições gerais ainda este ano, e análises sobre conflitos recentes, incluindo a guerra com o Hamas, mostram que sua posição política tende a se fortalecer em tempos de confronto, o que adiciona um fator interno à decisão de atacar.

Do lado americano, o presidente Donald Trump oscilou entre ameaças e gestos de pressão, ao mesmo tempo em que mobilizou meios navais e militares para a região.

Em janeiro, Trump disse aos manifestantes iranianos que “a hora da liberdade” estava próxima, e em conversas públicas recentes ele voltou a apontar o Irã como risco, mesmo tendo afirmado após a guerra de junho de 2025 que o programa nuclear iraniano havia sido “aniquilado”.

Justificativa legal, legítima defesa e críticas

Nos pronunciamentos oficiais, tanto Trump quanto Netanyahu disseram que o Irã representava perigo, e os ataques foram defendidos como medidas necessárias. Ainda assim, observadores destacam a grande disparidade de poder entre EUA e Israel, de um lado, e Irã, de outro, o que torna difícil enquadrar a ação na concepção clássica de legítima defesa contra uma ameaça iminente.

O uso do termo “preventivo” por Israel foi colocado sob suspeita por analistas, porque a prevenção, no Direito Internacional, exige evidências de ameaça imediata e proporcionalidade, critérios que não foram apresentados de forma clara ao público.

Além disso, a ofensiva marca mais um golpe ao já frágil sistema de direito internacional, pela forma como justifica ações militares sem a transparência de provas contundentes sobre um perigo iminente.

O que os líderes esperam alcançar e os limites dessa estratégia

Netanyahu parece buscar degradar o regime em Teerã e reduzir sua capacidade militar, enquanto Trump tem alternado objetivos, ora enfatizando controle nuclear, ora agindo para pressionar politicamente o Irã.

Há quem acredite que a intenção norte-americana e israelense inclua forçar uma mudança de regime, mas a história recente mostra que ataques aéreos sozinhos raramente produzem transições ordenadas e democráticas.

Os exemplos do Iraque em 2003 e da Líbia em 2011 mostraram que a queda de líderes pode levar ao colapso do Estado, guerra civil e centenas de milhares de mortes, com efeitos duradouros e instabilidade regional.

Por que assassinar líderes não é garantia de mudança

Algumas ações anteriores de Israel, incluindo assassinatos de líderes de movimentos armados, alimentam a hipótese de que o país considera o uso de ataques pontuais uma ferramenta estratégica.

No caso do Irã, porém, o regime é uma estrutura complexa, sustentada por ideologia, aparatos de segurança e uma rede política que inclui o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, o CGRI, cuja missão declarada é defender o regime.

Mesmo se um líder supremo fosse eliminado, é provável que outro clérigo apoiado pelo CGRI assumisse, porque o sistema político iraniano não depende de um único indivíduo, e práticas como o martírio fazem parte da narrativa ideológica dominante.

Trump, segundo reportagem, vê a política por uma lente transacional, influenciado por seu livro, “A Arte da Negociação”, mas lidar com o Irã exige reconhecer o peso da ideologia e da crença, fatores menos suscetíveis a barganhas simples.

Consequências regionais e o que vem a seguir

Com o ataque, líderes em Teerã precisam agora calcular como sobreviver ao choque, administrar suas consequências internas e responder a eventuais retaliações, enquanto vizinhos, incluindo a Arábia Saudita, observam com apreensão.

O Oriente Médio tem grande capacidade de exportar crises, e uma guerra renovada ou intensificada aprofunda a instabilidade de uma região já marcada por violência e incerteza, com potenciais impactos globais.

Analistas ressaltam também que não há um governo alternativo credível em exílio pronto para instalar uma transição democrática no Irã, o que reduz as chances de um resultado pacífico e ordenado apenas por pressão externa.

Em síntese, o ataque ao Irã representa, conforme avaliação de fontes citadas, uma escolha estratégica de EUA e Israel baseada na percepção de vulnerabilidade do regime, mas traz riscos elevados à estabilidade regional, ao direito internacional e à previsibilidade política na região.