Aumento repentino das importações de petróleo venezuelano pressiona refinarias da Costa do Golfo, Chevron, Vitol e Trafigura e amplia descontos e estoques
Após acordo de US$ 2 bilhões, embarques de petróleo venezuelano quase triplicaram para os EUA, mas demanda fraca e capacidade limitada travam vendas e ampliam volumes sem comprador
As refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos estão tendo dificuldade para absorver um aumento súbito nas cargas de petróleo venezuelano, com excesso de oferta pressionando preços e deixando parte do volume sem comprador.
O cenário se intensificou depois do acordo de fornecimento de US$ 2 bilhões entre Caracas e Washington, e da captura do presidente Nicolás Maduro no início de janeiro, que mudou rotas e compradores.
Operadores do mercado e dados de embarque mostram filas, descontos maiores e terminais cheios, conforme informação divulgada pelo g1.
Excesso de oferta, descontos e volumes em trânsito
As exportações para os EUA cresceram rapidamente, com cargas chegando a 284 mil barris por dia no mês passado, segundo dados baseados no movimento de navios.
Antes das sanções de 2019, os EUA importavam cerca de 500 mil barris diários do país, esse volume caiu a zero em meados de 2025, e agora recomeça de forma desigual e concentrada na Costa do Golfo.
Parte do problema é o preço, com cargas de petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro.
Como descreveu um operador, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes”, frase citada por fontes que acompanham as negociações.
Capacidade de refino e necessidade de ajustes
Nem todas as refinarias americanas conseguem processar imediatamente os graus mais pesados da Venezuela, e algumas precisarão de ajustes operacionais para voltar à plena capacidade.
Mark Lashier, presidente-executivo da Phillips 66, afirmou que a empresa “pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos”.
Mike Wirth, presidente-executivo da Chevron, disse que a rede da companhia “consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela”, o que indica sobra de carga e necessidade de armazenamento ou revenda.
A Chevron elevou embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro, enquanto Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris no mês, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, principalmente para terminais no Caribe.
Compradores, licenças e alternativas internacionais
Após a operação em Caracas, Vitol e Trafigura receberam licenças dos EUA para negociar e vender milhões de barris venezuelanos, e se juntaram à Chevron, que já tinha autorização para exportar o produto.
Parte das cargas foi vendida para refinarias nos EUA e na Europa, mas o aumento simultâneo das exportações tem complicado a busca por compradores suficientes, especialmente na Costa do Golfo.
A China, que era principal destino, deixou de receber cargas desde a captura de Maduro, e autoridades americanas afirmaram que os EUA passariam a controlar as vendas por tempo indeterminado, medida rejeitada por Pequim.
Uma alternativa em negociação é a Índia, após um acordo comercial anunciado pelo presidente Donald Trump, e sinais de que empresas indianas como a Reliance Industries estudam importar petróleo venezuelano, o que poderia aliviar estoques e reduzir descontos.
Riscos operacionais e próximos passos
Monitoramento de navios mostra petroleiros aguardando para descarregar nos EUA ou navegando em velocidade reduzida, e operadores apontam que levará tempo para que as refinarias americanas operem novamente em capacidade máxima com o produto venezuelano.
Fontes afirmam que parte do volume exportado em janeiro ainda não foi vendida, enquanto a produção total venezuelana saltou para cerca de 800 mil barris por dia no mês, ante 498 mil em dezembro.
O desfecho depende de ajustes de preço, capacidade de refino, e de negociações internacionais envolvendo Chevron, Vitol, Trafigura, PDVSA e potenciais compradores na Ásia, enquanto refinarias e traders tentam equilibrar oferta e demanda.