Banco do Brasil inadimplência agro e calote bilionário, por que atrasos sobem e como o banco tenta conter perdas e ajustar provisões em 2026
Contexto, números e medidas sobre a inadimplência do Banco do Brasil, com foco no agro, no calote de R$ 3,6 bilhões, nas provisões e em renegociações de dívidas
O Banco do Brasil terminou 2025 com **lucro líquido de R$ 20,7 bilhões**, mas viu crescer a parcela de clientes que atrasam pagamentos, especialmente no agronegócio.
O tema ganhou atenção adicional depois da inclusão de um **calote de R$ 3,6 bilhões** no balanço do quarto trimestre, originado por uma única operação que entrou em atraso, foi regularizada em janeiro de 2026 e depois cedida a terceiros.
O resultado trouxe ao centro do debate o aumento da inadimplência em um cenário de juros elevados e maiores custos de crédito, e expôs a concentração do banco no setor rural, com riscos mais intensos quando o agro enfrenta dificuldades, conforme informação divulgada pelo g1.
O episódio do calote e o impacto imediato
Segundo o balanço, o **índice de inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,17% no quarto trimestre**, ante 4,51% no trimestre anterior e 3,16% um ano antes.
O próprio relatório observa que, sem considerar o efeito desse calote específico, a taxa teria ficado em **4,88%**. Ainda assim, a leitura do mercado foi de que o banco ficou mais exposto ao risco, porque a alta concentra-se nas faixas acima de 90 dias, que elevam o potencial de perdas.
Após a divulgação, as ações do Banco do Brasil chegaram a subir mais de 8% na bolsa, mas, em seguida, recuaram, e, nesta sexta-feira, os papéis operaram em queda de 3,38%, cotados a R$ 15,15, conforme os dados apresentados no balanço.
Por que o agronegócio pressiona a inadimplência
O principal motor da piora foi o agronegócio, a área que mais se deteriorou em qualidade de crédito. No quarto trimestre, a **inadimplência no agro chegou a 6,1%**, com alta expressiva frente ao ano anterior.
O Banco do Brasil é o maior financiador do setor, respondendo por quase metade do crédito concedido ao agro, e, em dezembro de 2025, a **carteira agro somava R$ 406,1 bilhões, o equivalente a 31,3% da carteira total**.
Perdas causadas por eventos climáticos, aumento do endividamento de produtores e queda de preços de algumas commodities contribuíram para o aperto de liquidez no campo. A consultoria RGF mostra que o agronegócio tem hoje o maior índice proporcional de recuperações judiciais, com **13,53 empresas em recuperação judicial a cada mil ativas**, bem acima da média nacional de 2,13, e 493 empresas do setor em recuperação judicial, alta de 14,2% no trimestre.
Rodrigo Gallegos, sócio da RGF, afirmou, “O que sentimos na pele é que o cliente do agro, diferentemente do varejo, não está acostumado a lidar com essa falta de liquidez súbita. Quando a crise bate, o rombo é fundo e sistêmico”.
Reservas, renegociações e expectativas
Para cobrir perdas, o banco elevou provisões, incluindo **R$ 10,5 bilhões no agronegócio apenas no quarto trimestre**. O movimento reflete prudência, mas também pressiona resultados futuros caso a recuperação demore.
O Banco do Brasil lançou o programa BB Regulariza Dívidas Agro, que permite renegociar débitos de custeio, investimento e Cédulas de Produto Rural, com prazos de até nove anos. Até dezembro, **R$ 22,6 bilhões haviam sido renegociados com mais de 15 mil produtores**.
Analistas destacam que a normalização tende a ser gradual. O banco projeta crescimento modesto da carteira agro em 2026, entre -2% e +2%, e o BTG Pactual aponta que a recuperação da qualidade de crédito deve ocorrer de forma lenta.
Marcos Pelozato, advogado e especialista em reestruturação empresarial, alertou, “O episódio não representa um risco para todo o sistema financeiro, mas reforça a necessidade de atenção. Quando o índice de atrasos acima de 90 dias sobe de 3,16% para 5,17%, mesmo considerando um fator excepcional, isso indica que o crédito continua sob pressão”.
Helder Jhones, especialista em investimentos, lembrou que o calote afeta os resultados no curto prazo, porém, como a operação já estava prevista nas contas do banco e foi renegociada, “o risco de novas surpresas diminui”. O foco agora, segundo ele, é acompanhar a qualidade dos empréstimos adiante.
O que observar nos próximos meses
Investidores e analistas terão atenção a quatro pontos: a evolução da inadimplência acima de 90 dias, a exposição do banco ao agronegócio, o ritmo de renegociações e a capacidade de manter provisões suficientes.
No universo dos grandes bancos, o Banco do Brasil terminou 2025 com a maior inadimplência entre os tradicionais, segundo os dados divulgados, com comparativos como Banco do Brasil, 5,2%, Itaú Unibanco, 2,4%, Santander Brasil, 3,7%, Bradesco, 4,1%, e Nubank, 6,6% no 2º trimestre.
Em um cenário de juros ainda elevados, a tendência é que empresas muito endividadas sigam sob pressão e que pedidos de recuperação judicial possam continuar a subir, apontam especialistas, o que manterá a atenção do mercado sobre a **inadimplência do Banco do Brasil** e sobre a saúde do crédito ao agro.