Banco do Brasil inadimplência dispara com calote de R$ 3,6 bilhões e aumento no agro, entenda por que atrasos chegaram a 5,17% e o que muda para produtores e investidores

O calote bilionário, a concentração no agronegócio e a alta dos juros ajudam a explicar por que a inadimplência do Banco do Brasil subiu e o que isso significa

O balanço do Banco do Brasil para o quarto trimestre trouxe à tona um episódio que ganhou força na discussão sobre risco de crédito, ao registrar um calote de R$ 3,6 bilhões ligado a uma única empresa, o que elevou os alertas do mercado.

Além do evento isolado, os números mostram uma tendência de piora, com mais clientes atrasando pagamentos por mais de 90 dias, pressão que afeta resultados e exige provisões maiores.

Os dados e as análises citadas a seguir foram compilados conforme informação divulgada pelo g1.

O que disse o balanço e a dimensão do problema

Segundo o relatório, o índice de inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,17% no quarto trimestre, ante 4,51% no trimestre anterior e 3,16% um ano antes. Sem considerar o efeito do calote específico, a taxa teria ficado em 4,88%.

Para comparação entre grandes bancos, o ranking apontado no material mostrou: Banco do Brasil: 5,2%, Itaú Unibanco: 2,4%, Santander Brasil: 3,7%, Bradesco: 4,1%, Nubank: 6,6% (2º trimestre), o que evidenciou que o Banco do Brasil terminou 2025 com a maior inadimplência entre os grandes bancos tradicionais, mesmo desconsiderando o evento isolado.

Por que o agronegócio pesa tanto na conta

O principal fator apontado pelo próprio balanço foi a deterioração da carteira rural, com a inadimplência no agro chegando a 6,1% no quarto trimestre, um aumento expressivo em relação ao ano anterior.

O Banco do Brasil tem relação histórica com o setor e é o maior financiador do agronegócio no país, respondendo por quase metade do crédito ao setor. Em dezembro de 2025, a carteira agro somava R$ 406,1 bilhões, o equivalente a 31,3% da carteira total.

Para muitos produtores, choques climáticos, perda de safra, queda de preços em determinados momentos e o aumento do endividamento se combinaram a juros mais altos, reduzindo a liquidez e elevando a vulnerabilidade financeira.

Recuperação judicial e risco setorial

Dados da consultoria RGF mostraram que o número de empresas em recuperação judicial no Brasil atingiu recorde no quarto trimestre de 2025, com 5.680 companhias nessa situação.

Embora comércio e serviços concentrem mais casos em termos absolutos, o agronegócio foi apontado como o principal ponto de alerta pela rapidez da piora. Segundo o Monitor RGF, o setor tem hoje o maior índice proporcional de recuperações judiciais, com 13,53 empresas em recuperação judicial a cada mil ativas, bem acima da média nacional de 2,13.

Os dados apontam ainda 493 empresas do agronegócio em recuperação judicial, alta de 14,2% no trimestre, e dentro do segmento, o cultivo de soja concentra 217 empresas em recuperação judicial.

Como observou Rodrigo Gallegos, sócio da RGF e especialista em reestruturação, “O que sentimos na pele é que o cliente do agro, diferentemente do varejo, não está acostumado a lidar com essa falta de liquidez súbita. Quando a crise bate, o rombo é fundo e sistêmico”.

Medidas do Banco do Brasil e efeitos nos resultados

Para mitigar a pressão, o banco lançou o programa BB Regulariza Dívidas Agro, que permite renegociar débitos de custeio, investimento e Cédulas de Produto Rural, com prazos de até nove anos.

Até dezembro, foram renegociados R$ 22,6 bilhões com mais de 15 mil produtores, e o banco aumentou provisões para perdas: só no agronegócio, as reservas chegaram a R$ 10,5 bilhões no quarto trimestre.

Sobre o calote reportado, Helder Jhones, especialista em investimentos, destacou que “O calote reportado pelo banco no quarto trimestre afeta os resultados no curto prazo. Porém, como a operação já estava prevista nas contas do banco e foi renegociada, o risco de novas surpresas diminui. O principal ponto de atenção agora é a qualidade dos empréstimos daqui para frente”, diz.

Visão de risco, lições e o que esperar

O advogado Marcos Pelozato orientou cautela, ao afirmar, “O episódio não representa um risco para todo o sistema financeiro, mas reforça a necessidade de atenção. Quando o índice de atrasos acima de 90 dias sobe de 3,16% para 5,17%, mesmo considerando um fator excepcional, isso indica que o crédito continua sob pressão”.

Ele resumiu três lições: “Primeiro, a concentração de crédito exige acompanhamento rigoroso, porque um único cliente pode distorcer os números. Segundo, manter reservas adequadas é o que separa um problema controlável de uma crise de confiança. Terceiro, o mercado de crédito no Brasil ainda não voltou à normalidade”.

Analistas do mercado esperam que a melhora seja lenta. O próprio banco projetou crescimento modesto da carteira agro em 2026, entre -2% e +2%, e casas como o BTG Pactual apontaram que a normalização da inadimplência deve ocorrer de forma gradual.

No mercado de ações, a divulgação teve efeito volátil: após a notícia, os papéis do Banco do Brasil chegaram a subir mais de 8%, e na sessão seguinte operaram em queda de 3,38%, cotados a R$ 15,15.

Em resumo, o balanço do Banco do Brasil e o episódio do calote revelam uma combinação de fatores, com destaque para a exposição ao agronegócio, juros elevados e concentração de crédito, que exigem monitoramento, provisões e medidas de renegociação para reduzir riscos futuros.