Banco do Brasil inadimplência em 2025: por que o calote de R$ 3,6 bilhões e a crise do agro elevam riscos e pressionam a carteira de crédito
Inadimplência do Banco do Brasil sobe para 5,17% no 4º trimestre após calote isolado, agro registra 6,1% e carteira rural soma R$ 406,1 bilhões, pressão segue
O balanço do Banco do Brasil mostrou um salto na inadimplência no quarto trimestre de 2025, impulsionado por um calote de grande porte e pelo agravamento da situação no agronegócio.
O episódio reabriu o debate sobre concentração de riscos, exposição ao crédito rural e o efeito de juros altos na capacidade de pagamento de empresas e produtores.
Os dados e análises a seguir trazem valores e comentários divulgados sobre o tema, conforme informação divulgada pelo g1
O que ocorreu no quarto trimestre
No balanço, o banco informou que houve um calote de R$ 3,6 bilhões no quarto trimestre, atribuído a uma única empresa, operação que entrou em atraso no fim de 2025, foi regularizada em janeiro de 2026 e depois cedida a terceiros.
Com esse evento, o índice de inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,17% no quarto trimestre, ante 4,51% no trimestre anterior e 3,16% um ano antes. Sem considerar o efeito desse calote específico, a taxa teria ficado em 4,88%.
Para o investidor comum, isso significa que aumentou a parcela de clientes que demora mais de três meses para pagar dívidas, o que eleva o risco de prejuízo para o banco.
Por que o agro pressiona a inadimplência
O principal fator por trás do aumento da inadimplência é a carteira rural, que se deteriorou com mais intensidade. A inadimplência no agro chegou a 6,1% no quarto trimestre, com alta expressiva em relação ao ano anterior.
O Banco do Brasil é o maior financiador do setor rural no país, respondendo por quase metade do crédito concedido ao agro. Em dezembro de 2025, a carteira agro somava R$ 406,1 bilhões, o equivalente a 31,3% da carteira total.
O desempenho ruim reflete fatores como perdas por eventos climáticos, aumento do endividamento e queda de liquidez. No Plano Safra 2025/2026, entre julho e dezembro, foram desembolsados mais de R$ 116 bilhões.
Dados da consultoria RGF mostram que o número de empresas em recuperação judicial no Brasil atingiu recorde no quarto trimestre de 2025, com 5.680 companhias nessa situação. Embora comércio e serviços concentrem mais casos em números absolutos, o agronegócio é o principal ponto de alerta pela rapidez da piora.
Segundo o Monitor RGF, o agronegócio tem hoje o maior índice proporcional de recuperações judiciais, com 13,53 empresas em recuperação judicial a cada mil ativas, bem acima da média nacional de 2,13. No setor, há 493 empresas em recuperação judicial, alta de 14,2% no trimestre, e o cultivo de soja concentra 217 empresas em recuperação.
Como resume Rodrigo Gallegos, sócio da RGF e especialista em reestruturação, “O que sentimos na pele é que o cliente do agro, diferentemente do varejo, não está acostumado a lidar com essa falta de liquidez súbita. Quando a crise bate, o rombo é fundo e sistêmico“.
Impacto nas provisões, renegociações e perspectiva
O reflexo imediato foi o aumento das provisões, reservas para cobrir perdas, que chegaram a R$ 10,5 bilhões no agronegócio apenas no quarto trimestre. Para conter atrasos, o banco lançou o programa BB Regulariza Dívidas Agro, permitindo renegociar débitos com prazos de até nove anos.
Até dezembro, foram renegociados R$ 22,6 bilhões com mais de 15 mil produtores. Apesar das medidas, analistas avaliam que a melhora será lenta, e o próprio banco projeta crescimento modesto da carteira agro em 2026, entre -2% e +2%.
Helder Jhones, especialista em investimentos, observa que “O calote reportado pelo banco no quarto trimestre afeta os resultados no curto prazo. Porém, como a operação já estava prevista nas contas do banco e foi renegociada, o risco de novas surpresas diminui. O principal ponto de atenção agora é a qualidade dos empréstimos daqui para frente“.
O advogado Marcos Pelozato aconselha cautela na leitura do índice. Ele afirma, “O episódio não representa um risco para todo o sistema financeiro, mas reforça a necessidade de atenção. Quando o índice de atrasos acima de 90 dias sobe de 3,16% para 5,17%, mesmo considerando um fator excepcional, isso indica que o crédito continua sob pressão“.
Comparação entre bancos e reação do mercado
Ao final de 2025, o Banco do Brasil terminou com a maior inadimplência entre os grandes bancos tradicionais, mesmo desconsiderando o evento isolado. Os números citados foram, Banco do Brasil: 5,2%, Itaú Unibanco: 2,4%, Santander Brasil: 3,7%, Bradesco: 4,1% e Nubank: 6,6% (2º trimestre).
Após a divulgação do resultado, as ações do Banco do Brasil chegaram a subir mais de 8% na bolsa. Nesta sexta-feira (13), os papéis operavam em queda de 3,38%, cotados a R$ 15,15.
Em resumo, o aumento da inadimplência do Banco do Brasil em 2025 é explicado pela combinação de um calote de grande valor, a forte exposição ao agronegócio e um cenário de juros elevados e crédito mais restrito, fatores que devem manter a atenção de investidores e reguladores nos próximos trimestres.