quinta-feira, junho 4, 2026

Banco do Brasil inadimplência em alta após calote de R$ 3,6 bilhões e piora no agro, entenda por que atrasos chegam a 5,17% e o que muda para investidores

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Crise no crédito, calote e concentração no agronegócio aumentam a pressão sobre o Banco do Brasil, com inadimplência acima de 90 dias em 5,17% e riscos concentrados no agro

O Banco do Brasil registrou um calote de R$ 3,6 bilhões no balanço do quarto trimestre, causado por uma única empresa, e viu o índice de inadimplência acima de 90 dias subir para 5,17%.

A deterioração da carteira rural, mais alta exposição ao agronegócio e juros elevados no país ajudam a explicar o aumento dos atrasos, com impacto direto sobre a rentabilidade e o risco do banco.

O texto a seguir explica por que a inadimplência do Banco do Brasil subiu, como o agro pesa nas contas do banco e quais medidas estão em curso para reduzir perdas, conforme informação divulgada pelo g1.

O calote que expôs a fragilidade da carteira

O episódio do calote de R$ 3,6 bilhões ocorreu em uma operação que entrou em atraso no fim de 2025, foi regularizada em janeiro de 2026 e depois cedida a terceiros, segundo o banco.

No balanço, o índice de inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,17% no quarto trimestre, ante 4,51% no trimestre anterior e 3,16% um ano antes, e sem considerar esse calote específico a taxa teria ficado em 4,88%.

Para investidores, isso significa que a parcela de clientes que demora mais de três meses para pagar aumentou, elevando o risco de prejuízo. Após a divulgação, as ações do Banco do Brasil chegaram a subir mais de 8%, e depois passaram a operar em queda de 3,38%, cotados a R$ 15,15.

Helder Jhones disse, sobre o impacto do calote, “O calote reportado pelo banco no quarto trimestre afeta os resultados no curto prazo, Porém, como a operação já estava prevista nas contas do banco e foi renegociada, o risco de novas surpresas diminui, O principal ponto de atenção agora é a qualidade dos empréstimos daqui para frente”.

Por que o agronegócio pressiona a inadimplência

O principal fator por trás da alta da inadimplência do Banco do Brasil é o agronegócio, segmento que se deteriorou com mais força em termos de qualidade de crédito.

A inadimplência no agro chegou a 6,1% no quarto trimestre, refletindo perdas por eventos climáticos, aumento do endividamento e queda de receitas para produtores.

O Banco do Brasil tem relação histórica com o setor e é o maior financiador do agro no país, respondendo por quase metade do crédito concedido ao setor, com carteira agro de R$ 406,1 bilhões, o equivalente a 31,3% da carteira total em dezembro de 2025.

No Plano Safra 2025/2026, entre julho e dezembro, foram desembolsados mais de R$ 116 bilhões, o que mantém o banco muito exposto quando a atividade rural enfrenta dificuldades.

Rodrigo Gallegos, da consultoria RGF, afirmou, “O que sentimos na pele é que o cliente do agro, diferentemente do varejo, não está acostumado a lidar com essa falta de liquidez súbita, Quando a crise bate, o rombo é fundo e sistêmico”.

Os dados da consultoria mostram que o número de empresas em recuperação judicial no Brasil atingiu recorde no quarto trimestre de 2025, com 5.680 companhias nessa situação, e o agronegócio tem o maior índice proporcional de recuperações, 13,53 empresas em recuperação judicial a cada mil ativas, bem acima da média nacional de 2,13.

No agronegócio são 493 empresas em recuperação judicial, alta de 14,2% no trimestre, e o cultivo de soja concentra 217 empresas em recuperação judicial.

Medidas do banco e o que esperar nos próximos meses

Para tentar conter os atrasos, o Banco do Brasil lançou o programa BB Regulariza Dívidas Agro, que permite renegociar débitos de custeio, investimento e Cédulas de Produto Rural, com prazos de até nove anos.

Até dezembro, foram renegociados R$ 22,6 bilhões com mais de 15 mil produtores, e as provisões para cobrir perdas no agronegócio chegaram a R$ 10,5 bilhões só no quarto trimestre.

Analistas do BTG Pactual e projeções internas do banco sinalizam uma normalização lenta, com a carteira agro projetada para crescer entre -2% e +2% em 2026.

Marcos Pelozato, advogado e especialista em reestruturação, advertiu, “O episódio não representa um risco para todo o sistema financeiro, mas reforça a necessidade de atenção, Quando o índice de atrasos acima de 90 dias sobe de 3,16% para 5,17%, mesmo considerando um fator excepcional, isso indica que o crédito continua sob pressão”.

Ele complementou com três lições, “Primeiro, a concentração de crédito exige acompanhamento rigoroso, porque um único cliente pode distorcer os números, Segundo, manter reservas adequadas é o que separa um problema controlável de uma crise de confiança, Terceiro, o mercado de crédito no Brasil ainda não voltou à normalidade”.

Na comparação entre grandes bancos, o Banco do Brasil terminou 2025 com a maior inadimplência entre os grandes bancos tradicionais, mesmo desconsiderando o evento isolado, com indicadores de mercado mostrando: Banco do Brasil: 5,2%, Itaú Unibanco: 2,4%, Santander Brasil: 3,7%, Bradesco: 4,1%, Nubank: 6,6% (2º trimestre).

O quadro atual indica que a melhora será gradual, com atenção especial à qualidade dos empréstimos e ao comportamento do agronegócio frente a juros elevados e choque de oferta por eventos climáticos.

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