quinta-feira, junho 4, 2026

Banco do Brasil inadimplência, por que calote de R$ 3,6 bilhões e crise no agronegócio elevaram atrasos e pressionam provisões apesar do lucro em 2025

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Banco do Brasil inadimplência pressiona ações e gestão, carteira agro de R$ 406,1 bilhões, inadimplência agro de 6,1% e índice acima de 90 dias em 5,17%

Embora tenha encerrado 2025 com lucro líquido de R$ 20,7 bilhões, o banco estatal viu os atrasos nos pagamentos crescerem, em especial no agronegócio, o que acendeu alertas entre investidores e analistas.

O tema ganhou repercussão após a divulgação de um calote bilionário que afetou o resultado do quarto trimestre, e levantou preocupações sobre a qualidade da carteira de crédito em um ambiente de juros elevados.

Os dados e análises a seguir detalham por que a inadimplência do banco subiu e quais medidas foram tomadas, conforme informação divulgada pelo g1.

Calote de R$ 3,6 bilhões e impacto imediato

No balanço do quarto trimestre, houve um calote de R$ 3,6 bilhões atribuído a uma única empresa, o que trouxe o tema para o centro do debate sobre risco e governança.

Segundo o relatório, “o índice de inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,17% no quarto trimestre, ante 4,51% no trimestre anterior e 3,16% um ano antes. Sem considerar o efeito desse calote específico, a taxa teria ficado em 4,88%”.

Apesar do episódio pontual, o resultado operacional do ano mostrou lucro, porém a leitura do mercado ficou mais cautelosa, e as ações tiveram forte volatilidade, com os papéis do banco chegando a subir mais de 8% e, em seguida, recuando, “Nesta sexta-feira (13), o cenário já é outro: os papéis operam em queda de 3,38%, cotados a R$ 15,15”.

A concentração no agronegócio e a piora da carteira

O principal fator que explica a piora na qualidade do crédito é o agronegócio, segmento que teve maior deterioração no período.

A inadimplência no agro chegou a 6,1% no quarto trimestre, reflexo de eventos climáticos adversos, aumento do endividamento e queda de liquidez entre produtores.

O banco tem relação histórica com o setor e é o maior financiador do agro no país, com a carteira rural em R$ 406,1 bilhões, o equivalente a 31,3% da carteira total.

Dados da consultoria RGF apontam que “o número de empresas em recuperação judicial no Brasil atingiu recorde no quarto trimestre de 2025, com 5.680 companhias nessa situação”. O agronegócio, em especial, preocupa porque “o setor tem hoje o maior índice proporcional de recuperações judiciais, com 13,53 empresas em recuperação judicial a cada mil ativas, bem acima da média nacional de 2,13”.

Rodrigo Gallegos, sócio da RGF, resume o impacto, “O que sentimos na pele é que o cliente do agro, diferentemente do varejo, não está acostumado a lidar com essa falta de liquidez súbita. Quando a crise bate, o rombo é fundo e sistêmico”.

Provisões, renegociações e perspectivas

O reflexo da piora foi o aumento das provisões, com reservas para perdas que chegaram a R$ 10,5 bilhões no agronegócio apenas no quarto trimestre.

Para aliviar a pressão, o banco lançou o programa BB Regulariza Dívidas Agro, com renegociações de custeio, investimento e Cédulas de Produto Rural, com prazos de até nove anos. Até dezembro, “R$ 22,6 bilhões haviam sido renegociados com mais de 15 mil produtores”.

Analistas do BTG Pactual avaliam que a normalização da inadimplência no agronegócio deve ser gradual, e o banco projeta crescimento modesto da carteira agro em 2026, entre -2% e +2%.

Helder Jhones, especialista em investimentos, observa, “O calote reportado pelo banco no quarto trimestre afeta os resultados no curto prazo. Porém, como a operação já estava prevista nas contas do banco e foi renegociada, o risco de novas surpresas diminui. O principal ponto de atenção agora é a qualidade dos empréstimos daqui para frente”.

Riscos sistêmicos e lições para o futuro

Para o advogado e especialista em reestruturação empresarial Marcos Pelozato, a leitura dos números exige cautela, “O episódio não representa um risco para todo o sistema financeiro, mas reforça a necessidade de atenção. Quando o índice de atrasos acima de 90 dias sobe de 3,16% para 5,17%, mesmo considerando um fator excepcional, isso indica que o crédito continua sob pressão”.

Ele destaca três lições, que vão da necessidade de monitorar concentração de crédito à manutenção de reservas adequadas, passando pela constatação de que “o mercado de crédito no Brasil ainda não voltou à normalidade”.

Em resumo, a combinação de um calote isolado, a exposição ao agronegócio e um ambiente de custos de crédito mais altos explicam por que a inadimplência do Banco do Brasil subiu em 2025, e por que o caminho de ajuste deve ser acompanhado de perto por investidores, produtores e reguladores.

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