Banco Master: como a investigação avançou do Banco Central ao STF, com prisões, R$ 5,7 bilhões bloqueados, 42 mandados e questionamentos do TCU

Banco Master em foco, desdobramentos da liquidação extrajudicial, ação da PF com 42 mandados, bloqueios de R$ 5,7 bilhões, e o papel do BC, TCU e STF

Banco Master entrou nas últimas semanas no centro de decisões que envolveram órgãos como o Banco Central, o TCU e o STF, e passou a movimentar investigações e disputas institucionais.

As apurações, conduzidas pela Polícia Federal, levantaram suspeitas de fraudes, desvios e negócios que teriam inflado a liquidez aparente da instituição, e resultaram em medidas judiciais e bloqueios de ativos.

O caso ganhou nova etapa com ações em várias frentes e decisões sob sigilo no Supremo, conforme informação divulgada pelo g1.

A origem da crise e tentativas de venda

O crescimento acelerado do Banco Master foi sustentado por uma estratégia de captação considerada arriscada, com oferta de CDBs a taxas muito acima do mercado. Segundo as investigações, o banco chegou a emitir R$ 50 bilhões em CDBs, sem demonstrar liquidez compatível com esse volume.

Parte dos recursos foi aplicada em ativos de baixa liquidez, como precatórios e participações em empresas em dificuldades, o que elevou custos e gerou desconfiança sobre a saúde das contas.

Para tentar solucionar a crise, o controlador Daniel Vorcaro buscou compradores, e o BRB chegou a anunciar a compra, vetoada pelo Banco Central. Depois, a Fictor Holding Financeira anunciou a aquisição com aporte imediato previsto de R$ 3 bilhões, tentativa que não impediu novas medidas das autoridades.

Prisão de Vorcaro e ação da Polícia Federal

Poucas horas após o anúncio da compra pelo consórcio, Daniel Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos, no momento em que embarcava em avião particular com destino a Malta, segundo a investigação.

A defesa nega que ele estivesse fugindo, e afirmou que o destino final seria Dubai, onde havia reuniões com compradores, conforme comunicado apresentado pelos advogados.

Na segunda fase da operação, a PF cumpriu 42 mandados de busca e apreensão, autorizados pelo ministro Dias Toffoli, e apreendeu bens e valores, incluindo R$ 97,3 mil em espécie, além do bloqueio e sequestro de ativos que somam mais de R$ 5,7 bilhões.

Durante as diligências, foram recolhidos aparelhos, documentos, carros e relógios, e a investigação mira familiares e sócios do controlador, incluindo buscas na Avenida Faria Lima, em São Paulo, e em outros estados.

Liquidação extrajudicial, TCU e repercussões

O Banco Central instaurou administração especial temporária por 120 dias e decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado, medida que encerra as atividades e nomeia um liquidante para vender ativos e pagar credores.

No ofício assinado pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, a liquidação foi justificada pela “situação econômico-financeira da instituição” e pela “infringência às normas que disciplinam a atividade bancária”, argumentos que embasaram a saída do banco do sistema financeiro.

O Tribunal de Contas da União passou a questionar a operação, com o relator ministro Jhonatan de Jesus pedindo esclarecimentos e uma inspeção inicial, o que gerou reação do setor financeiro em defesa da autonomia do BC.

Após negociações, o relator suspendeu a inspeção e o BC retirou embargos de declaração, num acordo que definiu diligências técnicas sobre a documentação em vez de uma inspeção formal, com acesso restrito e preservação do sigilo nos documentos autorizados.

Sigilo no STF, conexões e impactos políticos

A investigação criminal foi concentrada no STF por decisão do ministro Dias Toffoli, que alegou existência de informações econômicas sensíveis capazes de afetar o sistema financeiro, e determinou a suspensão de procedimentos em instâncias inferiores.

Entre as medidas autorizadas no Supremo estão acareações e trechos do inquérito sob sigilo. A relatoria no STF também veio acompanhada de episódios que suscitaram questionamentos, como a viagem de Toffoli em voo particular que transportava um advogado ligado à defesa de um dos diretores do banco, situação que o ministro afirmou não ter influenciado o processo.

Reportagens também apontaram vínculos do banco com integrantes do Judiciário, como um contrato entre o Banco Master e a esposa do ministro Alexandre de Moraes, fatos que ampliaram a repercussão pública.

No aspecto político, a PF relatou que operações do banco envolveram bancos e fundos de pensão, e que, segundo apurações, teria havido pressão de políticos sobre essas instituições. O blog do Valdo Cruz informou que governadores e parlamentares ligados a Vorcaro estão na mira das investigações.

Investigadores chegaram a classificar a venda anunciada à Fictor como uma “bomba de fumaça” lançada no mercado diante do avanço das investigações, numa tentativa de reduzir impactos e ocultar irregularidades.

O que dizem as defesas

Nota da defesa: “A defesa de Daniel Vorcaro informa que tomou conhecimento da medida de busca e apreensão e reafirma que o Sr. Vorcaro tem colaborado integral e continuamente com as autoridades competentes. Todas as medidas judiciais determinadas no âmbito da investigação serão atendidas com total transparência. O Sr. Vorcaro permanece à disposição para prestar esclarecimentos sempre que solicitado, reforçando seu interesse no esclarecimento completo dos fatos e no encerramento célere do inquérito. A defesa reitera confiança no devido processo legal e seguirá atuando nos autos para que as informações sejam tratadas de forma objetiva e dentro dos limites constitucionais.”

O cenário permanece em evolução, com diligências no Supremo sob sigilo e ações técnicas entre TCU e BC, e acompanhamentos judiciais e criminais que podem redefinir responsabilidades e impactos no sistema financeiro.