Banqueiro Daniel Vorcaro, pastor e empresários, quem são os alvos da PF no caso Banco Master e qual o impacto financeiro estimado
Operação Compliance Zero avança sobre Banco Master, apontando venda de carteiras falsas ao BRB, prisões, buscas e bloqueio de bens com impacto bilionário
Nas últimas semanas, a investigação que envolve o Banco Master evoluiu de uma fase inicial centrada no controlador para um cerco a nomes do mercado e do entorno familiar e empresarial, com mandados, prisões temporárias e bloqueios de patrimônio.
O caso reuniu ações da Polícia Federal e decisões do Supremo Tribunal Federal, e levantou dúvidas sobre a extensão das operações financeiras que hoje motivam apurações por crimes contra o sistema financeiro.
Os principais alvos incluem o banqueiro Daniel Vorcaro, seu cunhado, o pastor e empresário Fabiano Campos Zettel, executivos ligados à gestora Reag, e o investidor Nelson Tanure, conforme informação divulgada pelo g1
Quem é o principal alvo, Daniel Vorcaro
Daniel Bueno Vorcaro, 42 anos, é apontado pela Polícia Federal como o líder de uma organização criminosa que teria agido contra o Sistema Financeiro Nacional. Ele foi preso em 18 de novembro, ao tentar embarcar para Dubai, e solto em 28 de novembro por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
A PF atribui ao grupo liderado por Vorcaro a articulação da venda de carteiras de crédito consideradas falsas ao Banco de Brasília, em 2025, numa transação que teria deixado um prejuízo de R$ 12,2 bilhões ao BRB.
Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro afirmou que “O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo. E após a gente começar a crescer, muda-se a regra do jogo“, e negou irregularidades nas tratativas com o BRB.
A defesa enviou nota dizendo que “Daniel Vorcaro reafirma sua inocência, segue colaborando integralmente com as autoridades e acredita que a análise completa dos fatos afastará interpretações que não refletem a realidade” e que as negociações com o BRB “permaneceram em estágio preliminar e não resultaram em qualquer transferência definitiva de carteiras”.
Pastor e empresário preso, Fabiano Zettel
Fabiano Campos Zettel, 50 anos, foi detido em 14 de janeiro no Aeroporto de Guarulhos prestes a embarcar para os Emirados Árabes Unidos e solto no mesmo dia. A prisão foi autorizada pelo ministro Dias Toffoli, do STF, mediante pedido da Polícia Federal.
Zettel é cunhado de Vorcaro, fundador e CEO da Moriah Asset, e tem atuação no setor de saúde e bem-estar. Também já foi o maior doador das campanhas do ex-presidente Jair Bolsonaro e do governador Tarcísio de Freitas, com doações somando R$ 5 milhões, segundo registros divulgados.
A decisão que determinou a prisão apontou que “a prática criminosa do investigado envolve diversos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional”, sem detalhar publicamente os fatos imputados, e a assessoria de Zettel afirmou que ele está “à inteira disposição das autoridades”.
Gestora investigada e o papel de João Carlos Mansur
João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos, foi alvo de mandados de busca e apreensão em 14 de janeiro, mas não chegou a ser preso. A Reag, posteriormente renomeada CBSF, foi liquidada pelo Banco Central em meio às investigações.
As apurações indicam que a gestora seria suspeita de usar fundos para movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e minimizar riscos, com indícios de lavagem de dinheiro em benefício do grupo Master.
Em seu site, a empresa repudiou as acusações e disse que não há provas de envolvimento em atos ilícitos. A Reag, segundo dados da Anbima citados em reportagens, administrava cerca de R$ 299 bilhões em fundos, o que a colocava entre as maiores gestoras do país.
Nelson Tanure e outras figuras do mercado
Nelson Tanure, 74 anos, foi alvo de mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF durante a segunda fase da operação. A Procuradoria-Geral da República teria apontado Tanure como “sócio-oculto” em negócios de Vorcaro com o Master, por meio de fundos e estruturas societárias complexas.
Após a deflagração da operação, advogados de Tanure publicaram carta em que ele nega quaisquer controles ou participações no Banco Master, afirmando “Não fui nem sou controlador do extinto Banco Master, tampouco seu sócio“.
Impactos financeiros, apreensões e pontos em aberto
Além das prisões e buscas, a investigação mostrou apreensões relevantes, como bens avaliados em R$ 230 milhões em obras de arte, joias e dinheiro em espécie, segundo levantamento realizado pela PF nas fases iniciais.
Calcula-se que a eventual quebra do Banco Master e do Will Bank, parte do mesmo conglomerado, pode atingir cerca de R$ 47 bilhões no mercado financeiro, valor que preocupa reguladores e agentes do setor.
Dados do caso também recordam que o Fundo Garantidor de Créditos cobre até R$ 250 mil por investidor, e que a estratégia de captação do Master incluía CDBs remunerados em média entre 130% e 140% do CDI, contra cerca de 110% do CDI praticado por concorrentes.
O banqueiro manteve visibilidade pública por empresas adquiridas e pelo estilo de vida de sua família, com menções a uma mansão avaliada em R$ 36 milhões e uma festa com contratação do DJ Alok, reportada na imprensa como tendo custado R$ 15 milhões.
O que a investigação apura e as defesas
A Operação Compliance Zero investiga crimes contra o sistema financeiro nacional, gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa, conforme pedidos e decisões judiciais que tramitaram nas diversas fases.
Investigadores dizem haver uma teia de negócios que teria permitido crescimento rápido do conglomerado, com uso de estruturas societárias e fundos, o que amplia o alcance das apurações para além do Banco Master.
Por outro lado, as defesas de Vorcaro, Zettel, Mansur e Tanure negam irregularidades, afirmam inocência e afirmam que muitas tratativas não avançaram a ponto de efetivar cessões de carteiras ou transferências, pediu uma análise completa dos fatos antes de conclusões.
Nos próximos passos, a PF e o Judiciário devem avaliar depoimentos remarcados, pedidos de bloqueio e eventuais novas diligências, enquanto o mercado acompanha sinais sobre a extensão dos danos e a possibilidade de responsabilizações civis e penais.