Brasil avalia acordo Mercosul China parcial e abre espaço para negociar cotas, regras sanitárias e procedimentos alfandegários diante de tarifas dos EUA

Governo sinaliza que um acordo Mercosul China limitado pode avançar a longo prazo, com foco em cotas de importação, procedimentos alfandegários e normas sanitárias

O governo brasileiro começou a reavaliar a posição que historicamente travou negociações formais com a China e agora admite a possibilidade de um acordo Mercosul China parcial, restrito a setores e faixas tarifárias.

A mudança ocorre diante da busca chinesa por laços comerciais mais profundos e das tarifas impostas pelos Estados Unidos, que têm redesenhado o comércio global e as alianças econômicas.

As discussões internas apontam para avanços graduais em temas técnicos, com cautela para proteger a indústria nacional, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que o Brasil mudou de postura

Autoridades dizem que há um “novo cenário global” e que é preciso diversificar parceiros, segundo um funcionário do governo que pediu anonimato, que afirmou, textualmente, “Precisamos diversificar nossos parceiros”.

O movimento também reflete o crescimento dos investimentos chineses no Brasil, que o governo quer preservar, e a percepção de que medidas protecionistas dos EUA alteram incentivos comerciais na região.

Especialistas citados nas conversas internas avaliam que pressões externas, como as políticas comerciais de Washington, estão incentivando Pequim a buscar acordos na América do Sul.

O que pode entrar em um acordo parcial

Fontes governamentais indicam que o Mercosul poderia negociar itens mais técnicos antes de um tratado amplo, por exemplo cotas de importação, procedimentos alfandegários e regras sanitárias e de segurança.

Esses pontos, segundo um representante do governo envolvido nas negociações, “já abririam espaço relevante no mercado chinês”. O mesmo oficial descreveu o tema como “altamente complexo” e disse que ainda é cedo para indicar setores específicos.

Um pacto limitado poderia permitir acesso a partes do mercado chinês sem expor de imediato toda a indústria regional à concorrência direta, segundo avaliação interna.

Obstáculos e dinâmica regional

Qualquer avanço exige consenso entre os membros do Mercosul, o que traz desafios políticos. O Paraguai mantém relações formais com Taiwan, e isso complica negociações com Pequim.

Em 2025, o Paraguai importou US$ 6,12 bilhões em mercadorias da China, dado usado nas discussões para mostrar que o diálogo comercial segue aberto, mesmo com diferenças diplomáticas.

O presidente paraguaio, Santiago Peña, disse, em entrevista, “Se existe hoje um bloco capaz de negociar com qualquer país ou grupo, esse bloco é o Mercosul”.

A Argentina também pode ser um entrave no curto prazo, diante da aproximação com os EUA desde a posse de Javier Milei, e do acordo de swap cambial de US$ 20 bilhões com o Tesouro americano, mencionado nas análises sobre alinhamentos externos.

O pesquisador Ignacio Bartesaghi afirmou que “Há uma nova dinâmica regional no comércio, impulsionada principalmente por Trump”, e ainda que “Ideias que antes pareciam completamente travadas agora podem avançar”.

Próximos passos e expectativas

Apesar de ainda distante um acordo amplo, integrantes do governo acreditam que um caminho gradual, com negociações por temas específicos, é factível ao longo do tempo.

Durante visita oficial, uma declaração conjunta entre líderes regionais e a China afirmou que esperam que as negociações entre China e Mercosul comecem “o mais rápido possível”, sinalizando vontade política, mas sem cronograma definido.

O avanço dependerá de acordos internos no bloco, de garantias para setores sensíveis e de negociações técnicas que definam cotas, normas e procedimentos, mantendo a prioridade de proteger a indústria enquanto se amplia o acesso ao mercado chinês.