Governo avalia pacto parcial com foco em cotas, procedimentos alfandegários e regras sanitárias para ampliar acesso ao mercado chinês
O Brasil passou a considerar, pela primeira vez, a possibilidade de negociar um acordo parcial entre Mercosul e China, em uma mudança de postura que busca proteger a indústria nacional e, ao mesmo tempo, diversificar parceiros comerciais.
Fontes do governo dizem que a ideia é avançar em etapas, começando por faixas tarifárias específicas e temas técnicos que abram espaço no mercado chinês sem expor setores sensíveis da produção brasileira.
As conversas internas foram motivadas, segundo integrantes do Executivo, pela pressão de tarifas dos Estados Unidos e pela busca da China por laços mais profundos com a região, conforme informação divulgada pelo g1
Por que o Brasil está mudando de posição
Historicamente o país vetou negociações formais com Pequim para proteger a indústria brasileira da concorrência chinesa. Ainda assim, nos últimos anos os investimentos chineses na produção brasileira cresceram, e o governo quer preservar esse fluxo.
Um dos funcionários ouvidos classificou a situação como um “novo cenário global”, e afirmou que “Precisamos diversificar nossos parceiros“, citando a necessidade de resposta a mudanças nas cadeias de comércio global provocadas por tarifas e políticas externas.
O que poderia entrar em um acordo parcial
Fontes do governo e representantes do Mercosul indicam que um pacto inicial poderia contemplar cotas de importação, procedimentos alfandegários, regras sanitárias e de segurança, áreas que já abririam espaço relevante para exportadores do bloco no mercado chinês.
O objetivo seria permitir maior acesso sem um compromisso amplo que exponha indústrias sensíveis, avançando por capítulos isolados que facilitem comércio e investimentos, sobretudo no agronegócio e em produtos com certificação sanitária.
Obstáculos políticos dentro do Mercosul
Qualquer acordo exige consenso entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, com a Bolívia prestes a se tornar membro pleno, o que impõe desafios políticos. O Paraguai mantém relações diplomáticas com Taiwan, o que complica negociações com a China.
Em 2025, o Paraguai importou US$ 6,12 bilhões em mercadorias da China, e o presidente paraguaio, Santiago Peña, afirmou que não se opõe a um acordo, desde que seja respeitado o direito do país de manter relações com Taiwan, e declarou, “Se existe hoje um bloco capaz de negociar com qualquer país ou grupo, esse bloco é o Mercosul“.
A Argentina também pode representar resistência, sobretudo após a aproximação com os Estados Unidos sob o governo Javier Milei, ainda que a China continue sendo credora importante e grande compradora de produtos agrícolas argentinos.
Impactos econômicos e próximos passos
Integrantes do governo consideram que um acordo parcial é uma opção de longo prazo, e que a negociação por temas específicos pode se mostrar viável mesmo sem um pacto amplo à vista.
Analistas apontam que as políticas comerciais de outros atores, como as tarifas dos EUA e acordos como o swap cambial de US$ 20 bilhões entre Argentina e Estados Unidos, têm contribuído para a reconfiguração de alianças econômicas na região.
O avanço dependerá da capacidade de conciliar interesses setoriais, garantir salvaguardas para a indústria local e obter consenso entre os membros do Mercosul, enquanto o diálogo com a China permanece aberto e sujeito a negociações técnicas e políticas.