quinta-feira, junho 4, 2026

Brasileiros que largaram carreira no Brasil para viver de faxina em Londres, entre renda informal, medo de deportação e dados do Home Office

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Por que profissionais formados viram para a limpeza em Londres, como a situação irregular altera direitos e quais números do setor e do Home Office explicam a tendência

Muitos brasileiros que tinham diploma e carreira no Brasil hoje trabalham como cleaners em Londres, por necessidade financeira e falta de oportunidades locais.

O emprego informal oferece renda maior que várias alternativas no Brasil, mas traz risco constante de fiscalização, deportação e condições precárias.

Entenda relatos de trabalhadores, dados do setor de limpeza e números do Home Office, conforme informação divulgada pelo g1.

Vida irregular, medo e silêncio

Fabiana, que concluiu o ensino médio, diz que sua falta de diploma universitário impede a regularização do seu status migratório.

“Vim durante a pandemia, quando as regras e leis de imigração ficaram ainda mais complicadas. Além disso, assistência jurídica é cara, e priorizo ajudar minha família no Brasil com o dinheiro que ganho”, afirma Fabiana.

Mesmo com algum equilíbrio financeiro, ela relata viver sob constante tensão, e diz que evita reclamar por medo de ser denunciada.

“A imigração já bateu na minha porta quando eu não estava. Já fui parada pela polícia e precisei fugir. Vivo com medo, em uma ansiedade constante, em um estado de vigilância permanente”.

Wagner, oceanógrafo, resume a rotina de alerta, com reservas financeiras e planos de retorno rápido em caso de deportação.

“Vivo em alerta o tempo todo, com dinheiro de emergência na conta e um contato para arrumar minhas malas caso eu seja deportado”, diz o oceanógrafo.

Regras do visto e o argumento do Home Office

O Home Office afirma que “o tempo de processamento para um visto de trabalho padrão e não complexo é de “apenas 15 dias úteis””.

O órgão informa que o visto do tipo skilled worker exige oferta de um empregador aprovado, e prevê salários mínimos como requisito.

Segundo o Home Office, o candidato a esse visto deve ter uma oferta de um empregador aprovado pelo Ministério do Interior, além da previsão de um salário anual de pelo menos 41,7 mil libras (R$ 339,4 mil) ou o salário-padrão para sua ocupação, o que for maior.

“Os requisitos salariais podem ser reduzidos por meio de pontos negociáveis ​​para um mínimo de 30.960 libras (R$ 223,1 mil) por ano”, explica o órgão, acrescentando que os candidatos a esse visto podem solicitar também a entrada de familiares e, após cinco anos, podem pedir residência permanente no Reino Unido.

O peso econômico do setor de limpeza

O setor de limpeza no Reino Unido tem grande peso, e parte das vagas é ocupada por imigrantes, especialmente em Londres.

Segundo dados divulgados esse ano pelo British Cleaning Council (BCC), “o faturamento do mercado de limpeza, higiene e resíduos do Reino Unido atingiu 66,9 bilhões de libras (cerca de R$ 482 bilhões) em 2022, um crescimento de 10,2% em 12 meses, tornando-se uma das dez maiores indústrias do país”.

O setor emprega 1,49 milhão de pessoas, cerca de 5% da força de trabalho britânica, e em Londres 60% dos trabalhadores da limpeza nasceram fora do Reino Unido.

Pesquisadores e trabalhadores alertam que o crescimento se apoia em precarização e terceirização, com pagamentos em dinheiro e contratos informais, o que amplia a vulnerabilidade.

Fabiana recorda trabalho com pagamento baixo e jornadas longas, encontrado em redes sociais, e diz que chegou exausta em casa por morar longe e não ter tempo para comer.

Ela conta, “Ganhava 9,50 libras [R$ 68] por hora, valor abaixo do comum, com pagamento a cada 15 dias. Trabalhava muitas horas, às vezes, sem tempo para comer, e chegava exausta em casa, porque morava longe”.

Fiscalização, multas e retornos voluntários

O governo britânico tem intensificado ações contra trabalho ilegal, com aumento nas operações e prisões, e oferece programa de retorno voluntário.

Entre julho de 2024 e junho de 2025, “o Home Office realizou 10.031 operações de fiscalização, um aumento de 48% em relação ao ano anterior”.

No mesmo período, foram registradas 7.130 prisões de imigrantes suspeitos de trabalho ilegal, 51% a mais que no ano anterior, e Londres concentrou 1.786 prisões.

O governo aplicou 2.105 multas a empregadores de pessoas em situação irregular, com punições chegando a 60 mil libras por trabalhador em situação irregular.

Dados oficiais mostram que “4.810 brasileiros retornaram voluntariamente ao país no período de um ano, um aumento de 49% em relação a 2024”.

O programa de retorno voluntário do Home Office oferece até 3 mil libras para pessoas em situação migratória irregular que aceitem deixar o Reino Unido, e os brasileiros representaram 18% dos 26.761 retornos voluntários realizados entre julho de 2024 e junho de 2025.

Para muitos, a decisão de trabalhar com faxina em Londres mistura busca por renda, limitações legais, e renúncia a direitos laborais, com custos altos para a saúde física e mental.

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