Por que brasileiros que largaram carreira no Brasil para viver de faxina em Londres aceitam informalidade, enfrentam fiscalização crescente e retornos voluntários
Muitos brasileiros chegaram a Londres deixando diplomas e carreiras no Brasil, em busca de melhor renda e condições de vida.
O trabalho de limpeza, ainda que informal e precário, oferece ganhos que, para quem vem de realidades difíceis, parecem uma oportunidade.
Essas trajetórias se misturam com medo constante de deportação, operações de fiscalização e retornos voluntários, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que migrar e trabalhar como faxineiro em Londres
Entre as razões citadas por quem optou por deixar a carreira no Brasil estão salários no exterior, necessidade de sustento da família e a impossibilidade de recomeçar em profissões regulamentadas.
Fabiana, que concluiu o ensino médio, diz que “Vim durante a pandemia, quando as regras e leis de imigração ficaram ainda mais complicadas. Além disso, assistência jurídica é cara, e priorizo ajudar minha família no Brasil com o dinheiro que ganho”.
Wagner, formado em oceanografia, afirma que vive com um sentimento de alerta permanente, e que a busca por estabilidade o fez aceitar um trabalho fora da sua área de formação.
Condições de trabalho, informalidade e saúde
O setor de limpeza em Londres emprega muitos imigrantes, e a informalidade é uma realidade comum, com pagamentos em espécie e contratos ausentes.
Marcel explica que “Muitos cleaners recebem em dinheiro, sem contrato formal, e podem ser dispensados sem aviso prévio, o que os torna vulneráveis ao roubo de salários e à exploração”.
Fabiana conta ter trabalhado por 9,50 libras por hora, com pagamento a cada 15 dias, além de jornadas longas que a deixavam exausta, o que ilustra a precariedade vivida por parte dos brasileiros que largaram carreira no Brasil para viver de faxina em Londres.
Fiscalização, deportações e números oficiais
O governo britânico tem intensificado a fiscalização do trabalho irregular, com impacto direto sobre imigrantes em situação irregular.
Entre julho de 2024 e junho de 2025, o Home Office realizou “10.031 operações de fiscalização, um aumento de 48% em relação ao ano anterior”. No mesmo período, houve “7.130 prisões de imigrantes suspeitos de trabalho ilegal, 51% a mais que no ano anterior”.
Foram aplicadas “2.105 multas a empregadores de pessoas em situação irregular”, e 4.810 brasileiros retornaram voluntariamente ao país no período de um ano, um “aumento de 49% em relação a 2024”. Os brasileiros representaram “18% dos 26.761 retornos voluntários realizados entre julho de 2024 e junho de 2025”.
O programa de retorno voluntário do Home Office oferece “até 3 mil libras (R$ 21,6 mil)” para quem aceita deixar o Reino Unido, e o órgão diz que pretende ampliar a fiscalização em 2026.
Setor de limpeza e perspectiva econômica
O setor de limpeza tem grande peso na economia britânica, e emprega muitos dos brasileiros que largaram carreira no Brasil para viver de faxina em Londres.
Segundo dados do British Cleaning Council, o faturamento do mercado de limpeza, higiene e resíduos do Reino Unido atingiu “66,9 bilhões de libras (cerca de R$ 482 bilhões) em 2022”, um crescimento de 10,2% em 12 meses, e o setor emprega “1,49 milhão de pessoas”.
Em Londres, “60% dos trabalhadores da limpeza nasceram fora do Reino Unido e 40% são britânicos”, o que mostra a participação relevante de imigrantes nesse segmento. Apesar disso, muitos trabalham sem contrato e com direitos limitados.
Sobre vistos de trabalho, o Home Office informa que o tempo de processamento para um visto de trabalho padrão e não complexo é de “apenas 15 dias úteis”, e que o visto do tipo skilled worker exige “uma oferta de um empregador aprovado pelo Ministério do Interior, além da previsão de um salário anual de pelo menos 41,7 mil libras (R$ 339,4 mil) ou o salário-padrão para sua ocupação — o que for maior”. O órgão acrescenta que “Os requisitos salariais podem ser reduzidos por meio de pontos negociáveis para um mínimo de 30.960 libras [R$ 223,1 mil) por ano”.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, vivem atualmente no Reino Unido “230 mil brasileiros, sendo 190 mil na área do Consulado-Geral de Londres”. Essas estatísticas ajudam a dimensionar o fluxo e as decisões de quem decide trabalhar com limpeza fora do Brasil.
Para muitos, a escolha de largar a carreira formal no Brasil e viver de faxina em Londres envolve uma troca entre maior renda relativa e perdas em segurança, direitos e tranquilidade, e essa tensão se reflete nas histórias e nos números oficiais que mostram aumento da fiscalização e dos retornos.