Brasilização ameaça países ricos, diz The Economist, juros a 15%, dívida em 66% do PIB e pensões pressionam orçamentos globais, alerta para os EUA
O alerta de ‘Brasilização’ aponta que juros altos, dívida crescente e rigidez de gastos, segundo The Economist, podem levar países ricos a crise fiscal similar à brasileira
A revista The Economist usou o Brasil como sinal de alerta para o que chama de Brasilização, um processo em que juros elevados tornam a dívida pública cada vez mais difícil de administrar.
O texto destaca uma combinação paradoxal, de indicadores aparentemente positivos com uma dinâmica de endividamento considerada explosiva, e diz que isso expõe riscos não só para emergentes, mas para o mundo rico.
O debate vale para governos, bancos centrais e eleitores, diante de opções duras entre ajuste e crescimento, conforme informação divulgada pelo g1.
O que The Economist entende por ‘Brasilização’
Para a revista, a Brasilização descreve um Estado com inflação controlada e banco central independente, mas com dívida que cresce por causa de juros muito altos e gastos inflexíveis.
O texto cita que, com a selic, a taxa básica de juros, em 15% ao ano, o governo brasileiro, “provavelmente tomará emprestado cerca de 8% do PIB por ano apenas para pagar a conta de juros”, mesmo com as contas primárias próximas do equilíbrio.
Também aponta que, “Sua dívida líquida, em 66% do PIB, é alta para os padrões de mercados emergentes, mas baixa para os do mundo rico.”
Fatores internos que agravam a situação
A revista associa a pressão dos juros a fragilidades institucionais e a traumas históricos, como a hiperinflação, que deixaram um “pavio mais curto” para reagir à inflação.
Sobre instituições, destaca que “As instituições brasileiras, diz a revista, seriam ‘frágeis’ e chegaram a ‘vacilar’ durante a tentativa de golpe do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022.”
Outro ponto é a rigidez do gasto com aposentadorias, hoje cerca de 10% do PIB, que sem reformas pode crescer mais que em países mais ricos e envelhecidos.
Segundo a revista, “Ainda assim, as pensões são protegidas na Constituição, que, por exemplo, determina que, quando o salário mínimo sobe, os aposentados também recebam mais. O controle extraordinário dos pensionistas sobre o orçamento dificulta o equilíbrio das contas e também desloca outros gastos mais valiosos.”
O alerta para países ricos e sinais nos EUA
O editorial afirma que o mundo rico deveria temer a Brasilização, porque pressões semelhantes sobre orçamentos e instituições já aparecem em economias avançadas.
A revista diz que os Estados Unidos já exibem sintomas iniciais do processo de “brasilização”: instituições sob pressão e uma inflação mais difícil de controlar após a pandemia.
O texto cita o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que “politizou o Departamento de Justiça”, deseja controlar o Federal Reserve e “cogita federalizar as eleições”.
Possíveis caminhos e reformas necessárias
A The Economist lembra que a saída política é difícil, citando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “afrouxou os cordões da bolsa”, o que reduz as chances de um ajuste fiscal severo no curto prazo.
A revista também critica o sistema tributário, classificado como uma bagunça, e afirma que a falta de reformas “mina a confiança do mercado e custa ao Brasil até um ponto percentual de crescimento por ano.”
Ela reconhece avanços, como o teto para isenções e o IVA dual, que pode elevar o PIB em até 4,5% até 2033, mas adverte que sem mudanças estruturais o país seguirá preso a um modelo fiscal insustentável.
O FMI projeta que a dívida pública bruta do Brasil vai atingir 99% do PIB em 2030, enquanto em 2010 correspondia a 62%, uma trajetória que reforça o alerta sobre os riscos da Brasilização para outras economias.