Casos aparecem no SCR e no Registrato, clientes afirmam que o BRB registrou dívidas quitadas ou inexistentes após compra de carteiras do Master e do Will Bank
Clientes que fizeram empréstimos ou contrataram serviços no Will Bank ou no Banco Master passaram a encontrar, no Sistema de Informações de Créditos, débitos registrados em nome do BRB, mesmo quando já quitados ou inexistentes.
As notificações surgiram após movimentos de compra e transferência de carteiras entre essas instituições, e em meio a investigação da Polícia Federal sobre possíveis fraudes envolvendo o Master e vendas de carteiras ao banco brasiliense.
O caso motiva reclamações, perda de oportunidades de crédito e questionamentos sobre quem é responsável pela correção das informações, conforme informação divulgada pelo g1.
Como o problema surgiu
Segundo relatos de clientes, as pendências apareceram ao consultar o Registrato, plataforma do Banco Central que reúne os dados que instituições financeiras compartilham com o BC. Muitos afetados nunca tiveram conta no BRB, e o vínculo decorre da compra de carteiras do Banco Master, iniciada em 2024, e da transferência de ativos originados pelo Will Bank.
O BRB informou que, após a liquidação do Will Bank, “deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas”. O banco acrescentou que, pelas regras contratuais, a instituição que originou os créditos deve acompanhar os pagamentos e enviar os dados e os valores correspondentes ao BRB.
Impacto nos consumidores e números
O registro indevido já causou prejuízos, como a negativa de financiamento imobiliário a um cliente que teve uma dívida não reconhecida listada como vencida. Em plataformas de reclamação, o volume de relatos aumentou: “ao menos uma centena de relatos apenas em janeiro deste ano, enquanto outras 324 reclamações foram feitas entre agosto e dezembro de 2025. No mesmo período de 2024, houve 76 registros sobre o tema”, o que representa um aumento de 326%.
Clientes relatam débitos de valores variados, acordos não refletidos no Registrato, e cobranças em nome do BRB por contratos que dizem ter quitado no banco de origem.
O que dizem a lei e especialistas
Especialistas consultados pelo g1 lembram que, pela legislação, “a transferência de créditos exige que o consumidor seja notificado”. A notificação deve ser feita por escrito, por e‑mail ou carta, e há necessidade de comprovar que o devedor tomou ciência da cessão.
Fabio Braga, sócio da área bancária e financeira do Demarest, explica que “Para isso, os bancos discutem a estrutura desses contratos e os custos envolvidos. ‘Por quanto vou vender e qual será o desconto? Outro ponto importante é que, na negociação, também se define quem ficará responsável pela gestão dos pagamentos'”, segundo a reportagem.
Advogados também apontam que, mesmo que o BRB alegue falta de informações por parte do liquidante, o banco adquirente tem responsabilidades, entre elas verificar e validar dados antes de registrar informações no BC. Gustavo Kloh, da FGV, afirma que “O BRB não pode alegar que um terceiro seja responsável pelo registro de dívidas indevidas. O banco precisa fornecer informações corretas ao consumidor e não pode registrar uma situação de crédito equivocada”.
Como os clientes devem agir
Especialistas orientam que o consumidor procure a instituição e solicite, por escrito, o contrato, o valor atualizado, quem está cobrando e qual foi o banco originador da dívida. “Se não há contrato, trata-se de uma cobrança indevida”, diz a fonte consultada pelo g1.
Se a questão não for resolvida, a recomendação é registrar reclamação em órgãos de defesa do consumidor, como Procon e Consumidor.gov, e avaliar ações judiciais em juizados especiais ou na Justiça comum, caso seja necessário.
Nota do BRB
O BRB informa que, após a liquidação do Will Bank, deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas. Pelas regras contratuais, o banco que originou os créditos deve acompanhar os pagamentos e, na sequência, fazer o envio dos dados e dos valores correspondentes ao BRB.
Após a liquidação, esse fluxo não foi retomado ainda pelo liquidante de modo que o Banco ainda não dispõe de informações suficientes para a baixa das operações. Por essa razão, alguns contratos apareceram como ativos ou inadimplentes no Sistema de Informações de Créditos (SCR), mesmo já tendo sido pagos no banco de origem.
O BRB realizou conciliações internas e encaminhou comunicados ao liquidante solicitando a retomada do processo, por parte dele. O Banco destaca, ainda, que a compra das carteiras seguiu todas as regras e contratos, e lembra que toda operação de crédito é registrada no SCR.
O Banco segue atuando junto ao liquidante para normalizar a situação, tomando medidas internas e está preparado para realizar a correção imediata dos dados assim que houver retorno do administrador do banco em liquidação.
Seguimos acompanhando o tema de perto e cobrando os responsáveis pelo envio das informações para que a normalização ocorra no menor prazo possível.